Em novo livro, Denise Emmer faz da poesia um questionamento

Pedro Lyra*, JB Online

RIO -

Lampadário (7Letra, 86 páginas) é o décimo livro de poesia de Denise Emmer, um dos nomes ulteriores da Geração-60 e um dos mais individualizados. Os nove anteriores de Geração estrela (1972 uma gralha na relação de obras da autora ao final do volume dá como de 1975) a Cantares de amor e abismo de 1995 encontram-se em Poesia reunida (Rio, Ediouro, 2002).

No prefácio ao seu quarto título (A equação da noite: Philobiblion, 1985), eu manifestava o desejo de que, com esse poemeto, ela começasse a firmar o seu nome na história da nossa poesia. Hoje, mais de 20 anos e cinco títulos depois, constatamos facilmente que aquele desejo já é uma realidade.

Como registra Alexei Bueno no prefácio, o título resume e indica com precisão a temática dominante da coletânea: o drama da morte. É o mais grave tema de todas as práticas culturais superiores da ciência, da filosofia, da literatura e, principalmente, da religião. Muito lógico, portanto, que por absoluta incompatibilidade esteja ausente em quase todas as manifestações da cultura de massa e, mais ainda, no arremedo de cultura da pós-modernidade. Estas são formas predominantemente hedonistas de celebração do instante de vida: quando a morte aparece em suas narrativas, é sempre como resultante fatalista de envelhecimento ou doença, de acidente ou violência, ou suicídio, jamais como tema metafísico para seu questionamento. São derivativos da cultura-diversão, mais voltada para o mercado e para a festa, não da cultura-reflexão, voltada para o entendimento do mundo aquele profundo empenho cognitivo de iluminação do sentido da vida, do destino do ser.

Bastaria a preferência por um tema como este (ao lado de outros igualmente elevados e comuns ao segmento da tradição discursiva da Geração-60, abordados em outros de seus livros) para se ter uma idéia do perfil poético de Denise. No seu universo temático, destacam-se: 1) os conflitos sociais ( Minha pobre geração / amordaçada nas praias / espancada nas escolas / amargurada nos quartos / torturada nas prisões / dependurada nos anos / como roupa que se guarda... / e se esquece / na História em No silêncio dos anos , de Flor do milênio, de 1981; 2) a natureza do amor ( Dize-me então por códigos impróprios / Os que serviram ao nosso amor avesso em Elegia , neste volume; 3) os segredos do cosmos ( Numa clara manhã / do terceiro tempo / nascerá a flor do milênio / e se ela for / metálica ou plástica, / haverá nessa mesma manhã / poetas siderais / para cantar ao universo / este amor de aço vitorioso , de A flor do milênio , do livro com o mesmo título.

Agora, neste Lampadário, ela espraia e aprofunda os questionamentos anteriores, em breves poemas de dicção sempre sóbria e carregada de sugestões metafóricas. No poema que intitula o livro (p.23), ela afirma dos seus mortos queridos (particularmente mãe e pai os tele-dramaturgos Janete Clair e Dias Gomes): Viajam todos num barco / levados por um ciclone / transitam vias sem nome / que desembocam no frio . Atente-se para a carga semântica de termos como barco, ciclone, frio e teremos um universo condensado de vastas e profundas sensações. Principalmente esse frio , onde a vida desemboca, como possível símbolo do nada. Ela interroga: Haverá além do nada / um povoado abstrato? Só a religião tem resposta afirmativa para essa questão, embora subjetiva. A ciência e a filosofia têm muito mais dúvidas, portanto a não-resposta. A poesia tem sugestões, como a que ela extrai: Tudo é poeira e palavra . Poeira: como símbolo do rastro da passagem terrestre; palavra: como o registro poético dessa passagem.

Textos como esse, da poesia de pensamento frontalmente oposta à poética miúda e rasteira dominante nesta hora podem funcionar como resposta aos assassinos e coveiros da poesia.

Ao longo desses decênios, se variou tanto na temática, o estilo de Denise não sofreu rupturas. "Em recensão sobre Ponto Zero", de 1988, publicada na Revista Colóquio/Letras de Lisboa (nº 104-105, jul.-out. de 1989), afirmei que seus poemas oscilam entre o dramático e o lírico, preferencialmente em versos livres, sem maiores preocupações artesanais (se as redondilhas são obviamente programadas, suponho que muitos dos decassílabos sejam casuais), porém formalizados em ritmos e imagens de cunho fortemente pessoal e de grande poder evocativo.

Exatamente e ainda como estes de Lampadário.

*Poeta e crítico, pós-douturado pela Sorbonne