Co-produção internacional de Murilo Pasta é selecionada para Sundance

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO - O diretor Murilo Pasta hesita na hora de apontar uma nacionalidade dominante em Carmo, co-produção entre o Brasil, a Espanha e Polônia, que representará os três países no Sundance Film Festival, o maior festival independente do mundo, de 5 a 15 de janeiro.

Rodado entre Corumbá, em Mato Grosso, e São Paulo, com um elenco que combina atores espanhóis e brasileiros, como Mariana Loureiro (Abril despedaçado), Márcio Garcia e Seu Jorge, o longa-metragem será exibido na mostra competitiva World Cinema.

É difícil afirmar que se trata de um filme brasileiro. Carmo é o resultado da conjunção da minha formação brasileira, da paixão pela cultura americana, mais especificamente pelo cinema dos irmãos Ethan e Joel Coen, e minha admiração pela publicidade britânica, para a qual trabalhei durante anos comenta, durante os intervalos da gravações do seriado de TV 9mm, São Paulo, o cineasta de 47 anos, 18 dos quais na Inglaterra.

Pasta acredita, no entanto, que os espanhóis terão mais motivos para torcer pelo sucesso do filme no Sundance, porque além de o cinema espanhol ter ido muito mal de bilheteria este ano, eles se sentem representados pelo ator Fele Martinez (Má educação) , que faz par romântico com a atriz brasileira.

Dos brasileiros, o diretor, que estudou cinema na ECA-USP, espera muito pouco.

Aqui, senti um descaso generalizado em relação ao projeto. Percebi um certo ciúme, por ter passado tanto tempo morando e trabalhando fora e vir fazer um filme no Brasil. Depois, quando Carmo ficou pronto, foi rejeitado pelo Festival do Rio e o de Brasília, que selecionou cinco documentários para a competição alegando que não tinha uma produção boa em ficção para premiar lembra.

Não reclamo por mim, mas acho uma afronta com os atores e os técnicos do meu filme. Gostaria que a seleção para o Sundance tivesse sido mais prazerosa, sem esse gostinho amargo de vingança na boca.

Carmo descreve a louca história de amor entre um jovem interiorana (Mariana), que sonha que emoções fortes, e o contrabandista (Martinez) que a raptou.

O roteiro, inspirado em um caso real, reproduzido em um jornal paulista, acrescenta detalhes inesperados, como o fato de o anti-herói andar em cadeira de rodas.

Na longa jornada comum, o casal de errantes topa com outros tipos estranhos, como dois bandidos extravagantes, interpretados por Seu Jorge e Márcio Garcia, e um músico de bar de beira de estrada, vivido por Zeca Baleiro (O compositor também escreveu canções para a trilha sonora).

Apesar da aparência sinistra, os personagens do Márcio e do Seu Jorge são o contraponto cômico da história. Márcio está completamente descaracterizado, com próteses no nariz, dentes podres e aparência imunda. Eu o vi como um corcunda de Notre Dame tupiniquim define Pasta.

Quando convidei Seu Jorge, ele me disse que estava de saco cheio de fazer papel de traficante e morador de favela, que só faria um novo filme se fosse algo cômico. O que foi perfeito para o que imaginava para ele, um criminoso gay meio alucinado.

Antes de transformar a notícia de jornal em roteiro, o diretor já havia determinado que Carmo seria desenvolvido em forma de um road movie. Grande parte das cinco semanas de filmagem foi gasta nas estradas próximas da fronteira entre o Brasil e o Paraguai.

É um gênero que dá aos realizadores uma liberdade genial. Acredito que as locações influenciam muito a equipe de um filme e, conseqüentemente, o produto. Também estava decidido a filmar longe de metrópoles. É um filme de fronteira resume.

Quando exibimos uma versão inacabada de Carmo para distribuidores durante o Festival de Cannes, um crítico do Hollywood Reporter o chamou de terra de ninguém , onde vale tudo. É a melhor definição para o espaço geográfico do filme.

Carmo fez sua estréia mundial no Festival de Varsóvia, em outubro. Pasta vê o Sundance como a plataforma ideal para o início de carreira do filme nas Américas.

Principalmente depois que o festival adotou oficialmente a política de selecionar produções mais positivas, que não têm medo de agradar ao público .

Tenho a impressão de os americanos gostaram mais do filme do que os europeus, que preferem histórias pesadas, com ressonância política ou social. Carmo privilegia a narrativa. Sou fã dos cineastas americanos da era de ouro de Hollywood, como John Huston, Howard Hawks e Alfred Hitchcock avisa Pasta.