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Benjamin Wallace lança o livro 'O vinho mais caro da história'

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Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO - Em 1985, a reputada casa de leilões inglesa Christie's pôs à venda um curioso objeto histórico: uma garrafa de vinho Château Lafite de 1787, que teria pertencido ao presidente americano Thomas Jefferson, o primeiro apreciador da bebida nos Estados Unidos.

Embalado pelo boom da degustação de vinhos antigos, que começavam a ressurgir subitamente da poeira dos séculos pelas mãos do suspeito empresário alemão Hardy Rodenstock, o item atingiu o incrível valor de US$ 156 mil, o maior já pago por uma garrafa da bebida.

Além de atrair a atenção da mídia do mundo inteiro, o fato provocou uma série de vendas do gênero, mobilizando bilionários em torno do mesmo objetivo: todos queriam adquirir um Lafite da coleção de Jefferson.

Quinze anos depois, porém, começaram a pipocar dúvidas sobre a autenticidade das garrafas. E uma épica caça legal a Rodenstock desestabilizou para sempre as vendas de vinho raro no mundo. A história, com todos seus contornos, está habilmente reconstituída em O vinho mais caro da história, livro-reportagem do jornalista americano Benjamin Wallace.

Para mim, sempre se tratou de um episódio fascinante explica o autor ao Jornal do Brasil.

O caso das garrafas de Jefferson era um mistério não-resolvido, que abriu meu apetite para a investigação. Além do mais, me permitia explorar, num híbrido de história e jornalismo, os aspectos sociológicos da evolução do conhecimento e do consumo de vinho.

Além do Lafite vendido ao americano Malcolm Forbes, quatro garrafas foram adquiridas pelo também bilionário William Koch, que pagou US$ 500 mil pelo conjunto.

Apesar de não haver provas razoáveis de que realmente pertenceram a Jefferson o indício mais concreto era a inscrição Th.J foram apresentadas como autênticas pelo leiloeiro e enólogo Michael Broadbent.

Mais tarde, uma incisiva investigação de Koch, que não suportou ser enganado, provou que Rodenstock, o descobridor da coleção, na verdade fabricava as garrafas em casa e aquecia o vinho para acelerar seu envelhecimento.

Wallace usa o episódio como ponto de partida para um retrato complexo sobre a cultura em torno da bebida. Com uma pesquisa cuidadosa, mergulha nas origens do consumo, acompanhando as viagens de Jefferson pelas vinícolas francesas e seu esforço de fazer do vinho um produto apreciado pelos conterrâneos.

Um século depois, os bilionários do pós-guerra começaram a desenvolver uma obsessão fetichista por rótulos, que ia muito além do simples gosto de beber.

Para eles, o vinho se tornara uma espécie de troféu. Wallace apresenta os novos-ricos como figuras um tanto cômicas, que usam gravatas de caubói, são donos de shoppings ou têm ocupações obscuras.

Observando as necessidades de afirmação social desse grupo, o autor se pergunta: por que as pessoas se tornam tão influenciáveis e se deixam enganar tão facilmente quando se trata de vinho? Será que, por trás de todo circo de leilões e processos judiciais, não há uma vontade inconsciente de ser ludibriado?

Não há dúvidas de que fatores psicológicos influenciam o gosto pelo vinho observa Wallace.

Acredito que, por causa da associação com questões de classe e status, áreas em que somos muito inseguros, o vinho pode ser especialmente suscetível a isso.

O lado satírico do livro aparece no retrato dos altos salões, das mesas de degustação, em que a alta sociedade desfila sem saber ou, pelo contrário, muito consciente de que participa de uma farsa. Wallace encontra personagens fascinantes como Michael Broadbent, o (antes) conceituado enólogo que tinha a capacidade de descrever vinhos com imagens libidinosas: não raro, comparava-os com as curvas de Sophia Loren.

Apesar da fleuma, Broadbent arruinou sua reputação ao se deixar enganar por outro personagem fascinante, o esperto e misterioso Rodenstock.

Encontrei-me com Broadbent várias vezes, saímos para comer em Londres lembra Wallace.

Já Rodenstock foi menos acessível. Entrevistei-o por fax algumas vezes, porque ele se recusou a me encontrar. Formei em minha cabeça uma imagem por meio de pessoas que o conheciam.

Nenhum dos personagens gostou do livro. Um representante de Broadbent chegou até a emitir uma nota reclamando de supostas distorções do livro.

Entendo que ele não goste da maneira pela qual é retratado, mas busquei a exatidão ressalta o autor.