Zé Renato relê jovem guarda, mas Roberto Carlos não libera músicas

Leandro Souto Maior e Ricardo Schott, Jornal do Brasil

RIO - Contar uma história sem a participação de um de seus protagonistas mais importantes é tarefa complicada, mas foi o que Zé Renato fez em É tempo de amar, que traz canções da jovem guarda relidas com sonoridade entre a bossa nova e a música pop.

Mas, apesar de incluir várias músicas lançadas por Roberto Carlos nos anos 60, o disco acabou ficando sem composições do próprio, como Namoradinha de um amigo meu, Vou ficar nu para chamar sua atenção e Estou apaixonado por você (estas duas em parceria com Erasmo Carlos), que o cantor queria no álbum.

Como Zé Renato desejava ter logo o disco nas lojas, achou prudente não esperar pela liberação de músicas de Roberto um processo demorado.

Vinicius no rock

Zé Renato lembra que Roberto está presente no CD.

Gravei várias músicas que foram sucesso com ele. Fica claro no disco que o Roberto é o grande expoente da jovem guarda. Mas precisava lançar logo o álbum, não podíamos esperar muito diz Zé Renato, que, além dos sucessos emblemáticos, concentrou-se em lados B do movimento, como a paródica Por você, tentativa de iê-iê-iê feita por Vinicius de Moraes e Francisco Enoé para a trilha do filme Garota de Ipanema, de Leon Hirszman (1967), gravada originalmente por Ronnie Von.

É uma grande surpresa. E a própria faixa-título do disco (feita por Pedro Camargo e José Ari e gravada por Roberto Carlos em 1967) é pouco conhecida.

Apesar de não ter conseguido gravar Roberto no CD, Zé Renato aguarda pela liberação das músicas para o show de lançamento (em 16 e 17 de janeiro, no Teatro Rival) e para a gravação do DVD.

Procurada pelo Jornal do Brasil, a assessoria de Roberto diz que o cantor, envolvido em vários projetos, não se negou a liberar o pedido de Zé Renato, feito em junho. Só não teve tempo de fazê-lo o Rei ainda tem cerca de 210 pedidos para serem avaliados.

Amo o Roberto, mas não aprovo o fato de ele dificultar a liberação de suas músicas. Não acho que seja uma atitude digna de um rei, que é o que ele é afirma o produtor do álbum, Dé Palmeira, que se alegrou por ter conseguido fazer com que Zé Renato elaborasse um trabalho diferente do habitual.

A ponte que ele fez da jovem guarda para a MPB é inacreditável. O disco tem harmonias rebuscadas, mas com guitarras dos anos 60 e órgãos Hammond.

O ponto de partida de É tempo de amar foi uma encomenda feita pela atriz Patricia Pillar, ex-mulher do cantor, para a novela A favorita.

Ela queria temas para a Flora, sua personagem. Na demo que fiz, incluí uma versão de O tempo vai apagar (de Paulo Cezar Barros e Getulio Côrtes, gravada por Roberto em 1968) recorda Zé Renato, que, para fechar o repertório do CD, recorreu à memória.

Sempre ouvi jovem guarda, é um movimento importantíssimo. Os compositores dessa época tinham uma capacidade absurda de captar o sentimento do povo brasileiro.

Além de músicos como Marcelo Costa (percussão) e Jota Moraes (teclados), o disco ainda tem Marcos Valle tocando piano Rhodes em Não há dinheiro que pague (Renato Barros) e Ninguém vai tirar você de mim (Hélio Justo e Edson Ribeiro) por sinal, ambos sucessos antigos do Rei.

O Valle deu o clima de que precisávamos. Além do piano inconfundível, veio ao estúdio diretamente do Maracanã, com a camisa do Botafogo diverte-se o cantor, que, carioca, trocou o Rio por São Paulo há dois anos.

Casei com uma paulista e achei que já era hora de vir para cá.