Novo espetáculo da Cia. Armazém leva 'trem' de emoções para o palco

JB Online

RIO - Há um leva-e-traz de afetos em Inveja dos anjos, em cartaz na Fundição Progresso, acompanhado por chegadas e partidas simbolizadas por um trem de emoções que vai e vem para deixar tudo no mesmo lugar.

Assinado por Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, o texto que comemora os 21 anos da Armazém Cia. de Teatro intenta flagrar estados emocionais provocados por situações de separação e proximidades, de negações e certezas provisórias de pequena humanidade perdida numa cidade interiorana qualquer, sobrevivendo ao peso das lembranças.

O trio de amigos, que num pacto informal decide queimar o passado, empreende volta no tempo, reativando dores e hesitações, passado e encontros, amores e ódios.

Essa cena inicial, que desencadeia a memória, é introdutória para viagens pessoais em que os passageiros das próprias existências descobrem como estão condenados a seus sentimentos. A garçonete que reencontra o homem que a abandonou, a doceira que esgota o ódio à mãe e o homem que refaz sua afetividade diante de uma filha inesperada.

Os autores refinam essa teia memorialística com delicados fios condutores, levada por anjos, ora decaídos, ora de pedra, que modelam os sentimentos e que, ao contrário de serem queimados no fogo destrutivo, se incendeiam pela revelação de suas fragilidades. O texto, em ambientação não identificada, se assemelha a peças oriundas do realismo psicológico americano.

Não falta o carteiro anunciador e bisbilhoteiro, que perpassa os personagens com sua gaita em que tira algumas frases musicais de Over the rainbow. A própria trama e o desenho dos personagens se impõem como referências a uma dramaturgia e a universo bastante conotados a um estilo e a uma estética.

Paulo de Moraes ambientou a cena com trilhos de ferrovia que enquadram a ação e iluminação e movimentos acrobáticos de belos efeitos teatrais, ainda que tais recursos ampliem demais a extensão do quadro a ponto de comprometer o intimismo. Por vezes, perdem-se os detalhes de tão pequenas vidas nessa amplitude espacial e na seqüência de pirotecnia visual.

Esse esgarçamento do espaço, de certo modo, condiciona a interpretação do elenco, que tem atuação mais expandida, também na contramão do registro camerístico das palavras.

O trio Marcelo Guerra, Patrícia Selonk e Simone Mazzer conduz a narrativa com a sensibilidade do pormenor. Ricardo Martins e Thales Coutinho imprimem interpretação mais corporal. Simone Vianna e Verônica Rocha alcançam bons momentos.