Ed Motta lança novo álbum e critica despreparo de jornalistas

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO - Em 20 anos de carreira, Ed Motta vendeu milhares de discos, lotou salas e compôs hits que vão do pop fácil de Manoel ao groove pesado de Tem espaço na van. Mas a vida não é nada fácil para ele, que busca reconhecimento musical num país em que, sustenta, a crítica está abaixo da crítica.

O cantor e compositor carioca, ex-tijucano, sofre na mão dos blogueiros e de parte da imprensa e a encara de frente. Acusando resenhistas de jornal de despreparados, Ed Motta exibe uma montanha de sucessos contestados nesta quarta-feira, no Canecão, num show comemorativo no qual mescla antigos sucessos com músicas do novo disco, o inclassificável Chapter 9. Críticos (alguns) não são bem-vindos. Precisam estar atentos a eventuais pauladas.

Não gosto da idéia de alguém se achar com o poder de julgar algo em poucas linhas, seja sobre vinho, cinema ou restaurante. É desanimador o nível cultural das pessoas que escrevem hoje em dia sentencia Ed Motta.

Talvez seja algo próprio dos países de língua latino-americana. Se você pegar uma crítica do The Guardian ou do The New York Times, você nota que eles têm mais respeito pelos artistas, e mostram mais cuidado na hora de atacar obras consagradas.

Os ataques de Motta ganharam evidência recentemente, depois da exibição do programa Altas horas, de Serginho Groisman, no qual o artista se desentendeu com o editor-chefe do Fantástico, Álvaro Pereira Júnior.

Na presença do jornalista, disse que tinha desdém pela crítica cultural, acrescentando que o que esse pessoal escreve é sem base de cultura e sem base técnica , provocando uma resposta enérgica de Pereira Júnior.

Motta chia. Afirma que o programa, cujo trecho em questão circula pela internet, foi editado de uma maneira tal que favoreceu o jornalista.

A conversa foi muito mais longa do que de fato apareceu no programa, cortaram muitas partes critica, cutucando mais uma vez a imprensa.

É nessas horas que você conhece as pessoas. Muita gente que foi lá e deu tapinha nas minhas costas, dizendo que meu disco era demais, depois apareceu com pseudônimo no Orkut feliz da vida dizendo que eu tinha me dado mal.

Ele diz que a crítica de arte no Brasil tem influência em sua trajetória comercial.

A classe média, que é quem compra meus discos, se importa com a crítica. Há um certo público que se deixa influenciar pelos cadernos culturais do mundo inteiro: é, por exemplo, quem vai comemorar os 50 anos da bossa nova agora. Mas é óbvio que quem compra axé não está nem aí para o que é publicado nos jornais.

No repertório do show, Motta promete que a parte mais autoral de seu trabalho, que muitas vezes recebeu críticas pesadas, atribuindo-lhe pedantismo, pretensão, excessos, ficará em segundo plano.

Metade das faixas de Chapter 9 deve ser incluída, com músicas como The man from the oldest building, You're supposed to.., St. Christopher's last stand, Twisted blue e The runaways.

Motta toca todos os instrumentos no disco, o qual considera um trabalho mais descontraído, sem o rigor técnico dos anteriores, soando mais como um álbum de rock.

Chapter 9 pode ser baixado gratuitamente pelo projeto Álbum Virtual Trama (www.albumvirtual.trama.com.br). Pelo site, é possível baixar todas as músicas, encarte e imagens dos 20 anos de carreira do músico.

O show está mais ligado aos hits afirma o cantor.

O lado autoral não está muito presente, quero mostrar os grandes sucessos da minha carreira, músicas que tocam no rádio e que todo mundo conhece... O repertório não traz tanto meu trabalho com o jazz. Mas, como a banda tem um editorial jazzístico, fica uma mistura interessante.

O show chega tarde no Rio, depois de várias apresentações em Belo Horizonte e São Paulo. Tocando em casa, porém, só há uma aparição marcada.

É estranho diz Motta.

Sempre tive bom público aqui, mas minha música é mais aceita em São Paulo. Lá os ingressos das três noites esgotaram um mês antes dos shows. Aqui haverá apenas uma noite e, pelo que sei, ainda não está lotado.