The Cure se refaz em frágil moldura pop

Braulio Lorentz, JB Online

RIO - Como não sai de moda falar que o CD novo de uma banda antiga propõe uma volta às origens , é de se esperar que o grupo inglês liderado pelo vocalista Robert Smith, único integrante fixo desde seu surgimento, em 1976, tenha proposta semelhante em seu 13º CD, 4:13 dream, recém-lançado no Brasil.

Então, dá-lhe produção que beira o amadorismo, a cargo do inexperiente Keith Uddin; vocais agoniantes (The scream); e até faixa que é sobra do clássico The head on the door, de 1985 Sleep when I'm dead. Soma-se a isso a volta do guitarrista Porl Thompson, membro original da banda, em seu primeiro registro em estúdio desde o retorno em 2005, quando tocou no giro do combo pelos festivais europeus de verão.

Produtor ligado ao pop

De resto, é o mesmo Cure que canta sobre pesadelos e amores, como se ambos os assuntos tivessem o mesmo significado. O discurso das letras permanece intacto, mas a sonoridade em alguns momentos abandona o lado mais sombrio e áspero do grupo. O mais expressivo trabalho de Uddin como produtor não levando em conta serviços técnicos prestados, sem papel de destaque, para artistas pop como No Doubt, Natalie Imbruglia, Lighthouse Family e Geri Halliwell era a caixa com lados B e raridades Join the dots: 1978-2001, despejada no mercado no mesmo 2004 em que Smith e seus comparsas lançaram o álbum de estúdio antecessor de 4:13 dream, batizado com o nome da banda e produzido pelo papa do new metal, Ross Robinson.

O pop radiofônico do currículo do produtor vaza para o som do Cure. The only one, uma das melhores canções lançadas pela banda nos últimos 15 anos, deixa no ouvido um gosto do popíssimo Wish (1992, responsável por emplacar o hit Friday I'm in love). Mas a fase mais festiva da banda não está impregnada em todo o álbum. Fãs que querem dançar ou chorar não terão problemas para encontrar uma trilha sonora ideal para cada ocasião.

Na tentativa de soar relevante e justificar o voto de confiança (e os pôsteres na parede do quarto) de novidades do rock alternativo, como The Rapture e Interpol; e de ídolos da geração pop punk, como Blink 182, Fall Out Boy e My Chemical Romance, o Cure comprime a carreira inteira em um só disco, mas de forma estabanada e sem pinta de coletânea. Da vontade de partir para a pista de dança mais próxima (The only one) à necessidade de soltar berros angustiados (The scream), a banda se perde e o ouvinte vai junto.