Diana Krall reverencia bossa nova em concerto delicado

Ricardo Schott, Jornal do Brasil

RIO - Belíssima, Diana Krall faz o dever de casa quase carioca na gravação do DVD dedicado à bossa nova, que aconteceu na sexta, no Vivo Rio. Delicada, concentrada nas harmonias ao piano, chegou a pedir desculpas ao extirpar das canções sua natural calmaria.

É, às vezes fico fazendo "grooves" no piano e esqueço de cantar. Mas vocês podem me ajudar brincou.

Criada à base de jazz desde a infância e apaixonada por bossa nova, a cantora e compositora canadense ressaltou a voz de sussurros e tintas joãogilbertianos. Em português mesmo, interpretou Este seu olhar, de Tom Jobim.

Fiquei muito sem graça por cantar em português no Brasil. Sou tímida. Mas estou aprendendo a língua. E a platéia me ajudou muito disse Diana ao Jornal do Brasil logo após o show.

Tenho um professor aqui no Rio, mas meu grande mestre foi João Gilberto, de tanto ouvir seus discos.

Testando o repertório que estará em seu próximo CD e acompanhada por supermúsicos (com destaque para o contrabaixista John Clayton e o percussionista brasileiro Paulinho da Costa, há anos radicado nos Estados Unidos) Diana, a não ser nos momentos mais jazzísticos como quando recordou os standards Cheek to cheek e Frim fram sauce, um clássico de Nat King Cole poderia até passar por brasileira.

Seu piano, especialmente quando recorda clássicos da bossa nova como Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes (vertida para Boy from Ipanema), aproxima-se mais do Brasil do que dos Estados Unidos. Até mesmo quando a música em questão é S'wonderful, clássico de Cole Porter que João Gilberto já relera no disco Amoroso (1978), com arranjos do mesmo Claus Ogerman que escreveu as partituras da orquestra do show de Diana.

Com a cantora e seu grupo (e graças à mão do maestro Ruriá Duprat, que comandou os músicos), as canções ganharam até mais balanço e leveza do que na releitura de João. Já Walk on by (Burt Bacharach e Hal Davis) escapou da dualidade jazz-bossa nova, recordando a turbinada sonoridade folk-jazzística da década de 70.


Diana Krall | Foto: Renato Thielle | CPDoc JB

Além de tocar e cantar, Diana conversou bastante com a platéia, arrancando risadas. Disse que pretende voltar numa próxima ocasião com a família, confessou que na escola ouvia jazz e bossa nova, e que quando conheceu Allison, de seu hoje marido Elvis Costello, não achava que o som fosse muito "cool". Entre músicas como a bossa importada Too marvelous for words e a delicadeza da recordação de Every time I say goodbye, outra de Cole Porter, relembrou mais clássicos brasileiros.

Em Quiet nights, versão americana de Corcovado, de Tom Jobim, silenciou para que a platéia a cantasse em português e acompanhou, sussurrando, numa mistura das duas línguas. So nice, versão em inglês do clássico Samba de verão, de Marcos e Paulo Sérgio Valle, abriu instrumental e depois ganhou letra. Um momento que facilitou ao público prestar mais atenção na Diana instrumentista: animada com a bela melodia de Marcos Valle, ela chegou a errar a letra num momento. Mas fez graça do próprio tropeço. Diana Krall parecia uma fã de Tom tentando sua bênção.

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