Livro discute o papel do personagem Satã

Alexandre Werneck, JB Online

RIO - Como toda idéia, Satã tem uma gênese. Mas para que nela a luz se faça o esforço não deixa de ser o de mover montanhas. O americano Henry Ansgar Kelly se atribuiu a tarefa desse lusco-fusco: alvorada nas trevas, genealogia da escuridão, Satã: uma biografia é um texto revelador. A leitura é de livro de teologia: minuciosamente, o autor, professor emérito de literatura inglesa e especialista em pensamento medieval que já cometeu algumas obras sobre seu personagem central atual (a mais famosa delas The devil, demonology and witchcraft: the development of christian beliefs in evil spirits), é um leitor atento, que percorre versículo a versículo livros e livros da Bíblia e de outras escrituras, entre sagradas, analíticas e apócrifas. Este não é, entretanto, um trabalho de história da mentalidade contemporânea típico. Nem é feito como texto de fácil digestão nem tem um método de análise muito simples. Não, este trabalho é para quem o levar bem a sério. Com o demônio não se brinca.

Com nenhum de seus nomes, aliás. A primeira parte da aventura teórica empreendida por Kelly é contra a confusão entre Satã e a lenda de um anjo caído, Lúcifer. Ou dos nomes diabo vindo do grego por meio da tradução do hebraico conhecida como a septuaginta ou demônio . É preciso zelar pela imagem de Satanás.

Porque, afinal de contas, ele nunca foi apresentado nas Escrituras como um ser misto de bode e dragão, com chifres e calda. Nunca foi vermelho nem exalou enxofre embora, sim, o inferno surja com esse mineral em abundância e nunca teve tridente. A idéia de uma visualidade demoníaca é oriunda dos primeiros anos da Igreja e surge da incorporação de várias tradições. E de uma operação que o catolicismo conhece bem: o demônio tem feições porque imagens pagãs (dona delas) foram demonizadas .

Em Kelly, Satã é antes de tudo buscado como um personagem múltiplo, que aparece nas penas de vários narradores com diferentes funções dramáticas. A primeira delas como adjetivo. O termo deveria vir com artigo definido antes: um satã , ao pé da letra, é um oponente . Assim, pode ser um anjo enviado por Deus (como o que se digladia com Abraão), um ente permitido por Deus (como o que tortura Jó), ou mesmo um ser dotado de papel (de promotor) nos julgamentos celestes, mas dificilmente, até o Novo Testamento, surgirá como o Satã , substantivo próprio, o nome de um personagem. O importante é que, sinteticamente, ele assume o papel de testador e acusador de toda a humanidade .

Desculpa esfarrapada

O ponto de partida de Henry Ansgar Kelly é a afirmação de que há uma primeira confusão na leitura da Bíblia, a de que Satã e a serpente, aquela que tenta Adão e Eva, provocando a saída do homem do Paraíso, são a mesma pessoa. Depois, no capítulo 8, o mais interessante do livro, ele retomará a discussão. E mostrará que foi Justino, o Mártir, arguto pensador eclesiástico, o primeiro a fazer a associação entre os dois personagens, mas sem explicá-la, operando a criação de um termo hifenizado Satã-Serpente (Serpente-oponente? Kelly não discute). De todo modo, o mais sutil [na Bible de Jérusalem, atual edição oficial, oriunda diretamente do aramaico para o francês, o termo utilizado é 'rusé', astucioso] dos animais que Javé-Eloim criou (Gn 3,1), o réptil que faz com que os primeiros seres humanos provem do fruto proibido, surge dessa conexão interligado à função por excelência de Satanás: justamente a de tentador.

O pesquisador começa então uma verdadeira peregrinação por doutores da Igreja em busca de debates para a motivação para esse lugar do Diabo. Da serpente tentadora ao anticristo que se oporá a Jesus e à história da salvação, essa criatura terá inveja dos homens pela criação à imagem e semelhança de Deus , terá raiva dos homens por suas realizações ou será algo bem parecido com um psicopata, com motivações interiores não muito bem explicadas (tudo teologicamente).

Kelly atua sobretudo como analista literário. O que ele faz não é uma operação de fé, mas de unificação. Satã é um Hamlet de centenas de Shakespeares, um Mephisto de milhares de Goethes, uma criatura de sem-números de criadores e não de inspiração divina (necessariamente). Se ele assume inúmeras formas em diferentes narrativas, é preciso esse parece ser o parti pris do livro encontrar uma lógica coincidente, algo que faça dele mais coerente, mais lógico.

E justamente por isso Satã: uma biografia se torna um livro tão precioso. Não se trata de encontrar qual a linha mestra que une vários vampiros a partir de uma leitura de Drácula e outros textos subseqüentes a ele. Trata-se, mais que isso, de ver, em diferentes tradições culturais e religiosas, a forma como cada uma delas articula a vilania, uma vilania máxima, a maior delas. Daí se torna fácil pensar que a antiga máxima faz sentido: se alguém vê o demônio, é motivo de felicidade. Se ele existe, é porque Deus existe também. Satã surge de todas essas operações literárias como um elemento subjacente da ação divina. Não é a pedra tão pesada que nem Ele próprio possa carregar , tendo-a criado, sendo tão poderoso que a pode criar. Satã não é oponente para Deus. Em vez disso, é antagonista do drama humano. Se a tradição grega cria uma divindade, ou seja, uma positividade, antagonista do homem por sua também humanidade os deuses do Olimpo são vaidosos, soberbos, invejosos e maquiavélicos a tradição judaico-cristã prefere fazer isso com uma negatividade.

Nesse sentido, Satã: uma biografia (que mereceria, talvez, o subtítulo de Uma bibliografia) é também uma compilação de uma certa filosofia sobre o homem no que tem de mais humano, sua fraqueza. Trata-se, talvez, da discussão mais antiga entre aquelas que tentam explicar porque agimos como agimos: motivação racional interna versus motivação determinante externa. Pois no momento em que é admoestado por Javé por ter desobedecido sua ordem, a de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, no momento em que comete o pecado original, Adão, dá, digamos, a desculpa esfarrapada original: Foi a mulher que Vós colocastes diante de mim quem me disse para eu comer e eu comi (Gn 3, 12). E, imediatamente depois, quando Ele vai ter com Eva, ela: Foi a serpente que me tentou e eu comi (Gn 3, 14). O autor não chega a esta minúcia de afirmação lógica, mas a insinua em vários momentos: Satã surge como o elemento externo que determina ações dos homens dotados de livre arbítrio . Arbítrio que opera vemos no Gênesis mesmo antes de ser concedido: se adquirem de Deus tal faculdade é porque já a haviam utilizado antes a revelia; quando decidem comer da árvore, eles adquirem o poder de decidir. Responsabilidade deles? Não toda, Satã tem sua parcela de culpa. E, eles, de desculpa.

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