Dashiell Hammett cria anti-herói da era da Lei Seca

Marco Antonio Barbosa, JB Online

RIO - A descrição de olhos e/ou olhares ocupa espaço de destaque na narrativa de A chave de vidro (Companhia das Letras. 260 páginas. R$ 42). Os olhos dos personagens podem ser sombrios , sonhadores , distantes , brilhar com ódio opaco ou parecerem inocentes . Não deixa de ser irônico, já que uma das principais características da ficção hardboiled da qual Dashiell Hammett é um dos fundadores e, possivelmente, seu mais influente estilista é a desconexão entre o que os personagens enxergam (ou acham que enxergam) e a verdade atrás das aparências. O quarto romance de Hammett (1894-1961) foi lançado em 1931, um ano depois da obra mais famosa do autor, O falcão maltês. E, em vários aspectos, é mais ambicioso e complexo que seu celebrado antecessor.

A desorientação dos protagonistas (e eventualmente dos leitores) diante de meandros e tramas que não conseguem compreender e a eterna sensação de estar sendo manipulado por alguém ou alguma força que os olhos não conseguem divisar é tema central no gênero. E em A chave de vidro, romance que extrapola a condição de trama puramente criminal, o escritor não apenas imerge o leitor na mesma desorientação de seus tipos ficcionais. Mas também cria um vívido painel das relações incestuosas entre o crime e o poder institucionalizado nos EUA do tempo da Lei Seca (1920-1933), quando gângsteres e senadores se ombreavam em espeluncas de bebida ilegal. Com suas descrições (às vezes até exageradamente) minuciosas de aparências e ambientes, o romance é um retrato realista de uma época em que poder paralelo não era apenas um jargão sociológico e sim uma realidade concreta e sombria.

No panteão das figuraças

Com este romance, Hammett adiciona mais uma figuraça a seu panteão de anti-heróis, no qual o Sam Spade de O falcão maltês é o nome mais célebre. Ned Beaumont (sempre referido pelo autor por seu nome todo, nunca só Ned ou só Beaumont ), apresentado na contracapa como jogador contumaz, bebedor profissional e detetive amador , conduz a trama. O protagonista é um anti-herói de fato e de direito, diferentemente dos outros tipos famosos criados por Hammett (além de Spade, há o Continental Op e o casal Nick e Nora Charles), que, mesmo usando eventualmente de expedientes escusos, sempre estavam do lado da lei. Beaumont é um gângster, mas um gângster improvável.

Ele começa a história ao lado de Paul Madvig, figura proeminente no submundo da cidade (não-identificada, mas geograficamente perto de Nova York) na qual se passa o romance. Madvig, que controla casas ilegais de bebida e apostas, quer dar o pulo do gato e legitimar seu poder emprestando apoio ao senador Ralph Henry, em campanha para reeleição. Como costuma acontecer em romances hardboiled e nos films noir inspirados por eles, um assassinato cometido em circunstâncias obscuras (cuja vítima no caso é o próprio filho do senador) põe as engrenagens da trama para funcionar. Beaumont, tipo enigmático não é um capanga nem um assassino profissional, e sim uma espécie de conselheiro com função prática meio nebulosa vai a campo para investigar o crime, que pode respingar tanto em seu patrão quanto no próprio senador. Em uma observação arguta de Hammett sobre a influência do crime organizado sobre a lei e a ordem: com um telefonema, Madvig consegue que Beaumont seja nomeado investigador especial da promotoria pública , status que o sujeito não demora a usar em causa própria.

Naturalmente (e aí começam a acontecer mais coisas do que os olhos podem enxergar), Beaumont descobre que há muitos outros interesses e mistérios por trás do assassinato. Interesses e mistérios que ele não compreende muito bem, mas que sabe que podem deixá-lo em apuros. Leal a seus empregadores, mas antes de tudo leal a si mesmo, o protagonista se vê num fogo cruzado entre gangues rivais. Na hora de escolher um caminho, pensa antes de tudo na sua própria, e desvalorizada, pele.

Embora a chamada era dourada do romance policial já estivesse em curso quando Hammett surgiu (Agatha Christie, por exemplo, publicava desde 1920), é indiscutível a inovação que o autor trouxe ao gênero. Os anos passados como detetive particular na vida real trouxeram uma aura de realismo incomparável a suas narrativas. Não há deduções milagrosas nem mordomos prontos para serem incriminados. Seus investigadores batem perna, esmurram suspeitos e plantam provas falsas. Em A chave de vidro, há a descrição de uma sessão de espancamento e tortura impingidos ao duro-na-queda Beaumont com detalhes gráficos que provavelmente causariam engulhos a Lady Agatha ou a Sir Conan Doyle. Os crimes sempre pareceram mais sangrentos e assustadores em seus livros. E mais próximos da vida real, afinal de contas. Com seu caráter de painel histórico, A chave de vidro permanece influente até hoje, tendo sido decalcado em filmes como Chinatown (1974) e Ajuste final (1990) com sua mistura explosiva de política, crime, vício e corrupção.

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