'Não faço filme comercial', diz Paulo José

Monique Cardoso, JB Online

RIO - Celebrado com mostra no Festival Internacional de Cinema de Brasília e prestes a encarnar o Profeta Gentileza em novela da Globo, Paulo José critica Barretão e defende obra de autor.

Sentado na soleira da entrada de sua biblioteca, na casa no alto da Gávea, Zona Sul do Rio, onde vive há 10 anos, o ator Paulo José lamenta não ver Juventude, longa de Domingos Oliveira protagonizado por ele, pelo dramaturgo Aderbal Freire-Filho e pelo próprio cineasta, na programação do Festival de Brasília, anunciada esta semana. Diz não entender por que a mostra, que já lhe ofertou importantes troféus Candangos e ocupa o mês de novembro no calendário do cinema nacional, ainda conserva a exigência de só exibir produções inéditas. Com a serenidade que lhe é característica, apesar da fala rápida de quem a vida inteira devorou palavras e as devolveu em forma de personagens inesquecíveis.

Brasília não tem mais a importância que já teve. Essa exigência do ineditismo está derrotada, eles têm de acabar com esta bobagem sentencia o ator, referindo-se à reportagem de capa do Caderno B da última quinta-feira, que mostrava a dificuldade do festival para montar uma programação inédita. Sempre vão perder a safra, as pessoas precisam mostrar os filmes, o que resta são os festivais, não há mercado sólido de cinema no Brasil.

Nas próximas semanas, ele deve voltar à capital federal, onde começa a rodar Ensolação, primeiro longa-metragem do diretor de teatro Felipe Hirsch. Também tem outro compromisso no cerrado: vai receber uma homenagem do Festival Internacional de Cinema de Brasília, que corre em paralelo à mostra nacional, entre os dias 29 de outubro e 9 de novembro. O FIC, que chega à 10ª edição, exibe quatro filmes de momentos cruciais de sua carreira: Todas as mulheres do mundo (1966) e Edu coração de ouro (1967), ambos de Domingos Oliveira; Faca de dois gumes (1989), de Murilo Salles; e Policarpo Quaresma, herói do Brasil (1998), de Paulo Thiago. O ator, que não faz distinção entre as duas mostras brasilienses, é assumido defensor dos festivais. Por isso também não entende a razão que levou o produtor Luiz Carlos Barreto a atacá-los, noutra reportagem do Caderno B, na semana passada.

Diferentemente do que o Barretão fala, os festivais são fundamentais para a sobrevivência do cinema. Envolve os estados, as prefeituras, faz com que cidades inteiras Brasil afora repitam a palavra cinema . Leva notícias para a cidade, incrementa o turismo.

Lembranças de Gramado

Em vez de se estender nas justificativas para rebater o produtor, ele conta uma história de 1970, quando fez Gaudêncio, centauro dos Pampas, um título pouco conhecido de sua extensa filmografia. Rodado em Gramado, motivou a criação do festival que inseriu a cidade no mapa do Brasil:

Lá só tinha um hotelzinho. Hoje tem turismo o ano todo. A quantidade de paulista que desembarca por lá, de ônibus...

Requisitado por cineastas de diferentes gerações, seu critério fundamental para aceitar ou não um personagem num filme é um só.

Não faço filme comercial avisa. Para isso nem me chamam mais. Só faço filme de autor. Há bons atores que entram num set de costas para o filme, fazer como se fosse mais um trabalho, para ganhar um dinheirinho. Eu gosto é de fazer cinema, de me envolver. Se estou fazendo um trabalho, esta é a coisa mais importante no momento.

Conta procurar respeitar a ordem dos convites. A próxima safra é outra daquelas de tipos incríveis. Além do longa de Felipe Hirsch, em que será um burocrata russo num país imaginário, protagoniza o novo filme de Sérgio Machado, dando vida ao mítico Quincas Berro D'água, do universo de Jorge Amado. Também vai atender a Glória Perez e encarnar, na próxima novela das oito da Globo, Caminho das Índias, o profeta Gentileza.

Não tenho um caráter específico. O ator não tem caráter, não pode querer ser maior do que um papel define. Já persegui muitos papéis, como Macunaíma, hoje estou mais relaxado. Creio que me procuram muito para tipos que em alguma coisa se parecem comigo, que tenham essa minha cordialidade. Há aspectos, físicos até, que condicionam os papéis. O ator não faz o que quer.

Mas como não ser o mesmo Paulo José em trabalhos tão distintos? Enquanto descreve seus novos personagens, com a empolgação de quem não se cansa de se encantar com a carreira, inicia um mimetismo assombroso, que o transforma em vários. Para Ensolação, fecha a cara, encurva os ombros e remete ao se eu fosse do método Stanislavsky: Se fosse um burocrata russo, uma pessoa vinda de longe, solitária, cheia de manias, seria implicante . Está tomando aulas de russo.

Estou exagerando bem no sotaque para depois limpar, deixar uma referência ao fundo. O personagem tem muito texto. Mais que se aterem à forma, as pessoas têm que compreender o conteúdo do que digo, e por isso precisa ser agradável aos ouvidos ensina.

Com Quincas Berro D'água, Paulo José dá seguimento à série de papéis literários, como Macunaíma (de Mário de Andrade) e Policarpo Quaresma (de Lima Barreto). Levanta, imita comicamente o estereótipo do bêbado, entorta o rosto. Afinal, vou passar boa parte do tempo morto , brinca. As filmagens serão realizadas em março, em Salvador e em Cachoeira, no Recôncavo Baiano.

Quincas morreu rindo, que deboche. Como os amigos acham que ele está bêbado, então estou estudando todas as minhas máscaras faciais.

Para Gentileza, vai levar a biblioteca de diversos personagens e, ao seu profeta, emprestar o lado visionário de muitos de seus emblemáticos papéis.

Não pode ser caricatural, ele é um visionário, um Quixote. Como o Policarpo, tem aquele olhar elevado, num horizonte distante. Não é um personagem pequeno burguês, não tem cotidiano, está em cima de uma nuvem filosofa.

A tarde cai e, agora na varanda da casa, Paulo José se percebe completamente cercado pela bruma que desce rapidamente:

Nossa, eu é que estou no meio de uma nuvem.

Os filmes do Domingos me deram prestígio. Ele criou a comédia urbana brasileira

Talvez a mostra Homenagem a Paulo José, dentro da 10ª edição do Festival Internacional de Cinema de Brasília, seja a mais curta retrospectiva de filmes do ator já realizada, embora a programação do evento seja bem fornida. O FIC, que será aberto por Vicky Cristina Barcelona, novo longa de Woody Allen, exibe mais 100 filmes entre 29 de outubro e 9 de novembro na capital do Distrito Federal e acontece paralelamente ao Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O tributo tem apenas com quatro títulos Todas as mulheres do mundo (1966) e Edu coração de ouro (1967) ambos de Domingos Oliveira, Faca de dois gumes (1989), de Murilo Salles, e Policarpo Quaresma, herói do Brasil (1998), de Paulo Thiago. A escolha, na avaliação do próprio Paulo José, faz um resumo não só de sua carreira, mas do cinema.

Esses filmes dão uma boa referência da evolução do cinema brasileiro diz o ator. Paulo Thiago é sociólogo, seus filmes têm uma preocupação histórica. Murilo comenta uma nova ética, uma nova moral. Domingos criou a comédia urbana brasileira. Naquela época o cinema é que pautava os costumes, não a TV.

Em seus 40 anos de carreira, Paulo José já conquistou 29 prêmios, foi personagem de 31 filmes, ator e diretor de 40 peças de teatro e atuou em 72 novelas e minisséries. O vasto currículo não o impede de comentar em detalhes a realização dos quatro filmes, embora apenas um seja relativamente recente.

Pensados inicialmente como dois médias metragens, Todas as mulheres do mundo e Edu coração de ouro acabaram ganhando vida mais longa. Rodados nos anos 60, funcionaram como contraponto às pornochanchadas:

Os filmes do Domingos me deram prestígio reconhece. Ele iniciou a comédia urbana carioca, humanizando personagens, retratando a classe média Ipanema. Até em Bagé as pessoas queriam saber o que se passava em Ipanema!

Esses foram apenas dois filmes em que o ator diz ter interpretado o alter-ego do diretor. O modo de filmar de Domingos Oliveira, que ele reencontrou agora, em Juventude, o arrebatou.

Éramos nós mesmos, com as nossas coisas. A casa era a dele, eu usava minhas roupas, Leila as dela, não tinha isso de direção de arte.

O apuro técnico de Murilo Salles foi o que impressionou o ator durante as filmagens de Faca de dois gumes. Mesmo correndo o risco, o tempo todo de deformar os personagens em primeiro plano, o cineasta optou por um recurso ousado, uma lente grande agular, de 25mm, que permite

profundidade focal, adequada para não se perder detalhes ambientes.

Este é um filme de grande qualidade artesanal elogia. Murilo rodou com muita competência, ele entende muito de cinema, até começar a dirigir já tinha sido diretor de fotografia de muitas produções.

Sob direção de Paulo Thiago, o ator interpretou o mais famoso personagem de Lima Barreto. Paulo José conta ter esperado 20 anos para fazer Policarpo Quaresma, personagem que considerava obrigatório depois de rodar Macunaíma.

Sempre soube que faria este personagem, que sempre quis ser o exemplo da integridade.