Miriam Goldschmidt diz perda de filha ajudou a criar performance

Rachel Almeida, Jornal do Brasil

RIO - Nos anos 70,começo de sua vida adulta, a atriz alemã Miriam Goldschmidt estava profundamente entediada. Já envolvida numa série de produções em Berlim, Frankfurt e Zurique, achava o teatro convencional bastante chato.

Em crise, leu um livro de Peter Brook e tudo mudou. Espantada com as idéias do diretor inglês radicado na França, hoje considerado um dos encenadores mais importantes do mundo, vendeu um anel presenteado pela mãe para pagar uma passagem de trem até Paris e conhecer seu mestre.

No Rio para apresentar, de sexta a domingo, ao lado do músico Francesco Agnello, a peça Warum, Warum ( Porquê, Porquê ) dirigida justamente por Brook a atriz explica ao Jornal do Brasil sua profunda ligação com o diretor, a busca pela simplicidade cênica e o processo dolorido de levantar a peça que estreou em abril (em Zurique, Suíça) e que agora chega ao Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico.

Eu e Peter temos uma relação intensa e uma trajetória profissional longa, mas o princípio é emblemático. Quando li sua obra, entendi que havia algo profundo na arte teatral que ainda não compreendia detalha a atriz.

Deixei tudo para trás e me mudei para Paris, sem dinheiro, para conhecê-lo. Depois de levar muita porta na cara, consegui encontrá-lo durante um ensaio. Uma assistente me mandou embora, mas, de repente, Peter se virou para mim e perguntou Quem você está procurando? . Tímida, mas resoluta, respondi: Você . Ele me aceitou.

Escrito por Brook em colaboração com a parceira profissional de longa data Marie-Hélène Estienne, Warum,Warum é baseado em textos de dramaturgos e pensadores como Artaud, Edward Gordon Craig, Charles Dullin, Zeami Motokiyo e Shakespeare, numa empreitada que se propõe a explicar a origem e o sentido do teatro. A atriz dá sua definição:

É uma peça sobre vida e morte. E também sobre não ter respostas, daí o título. Tínhamos um amontoado grande de textos que chegava a assustar. Aos poucos, fomos nos livrando de páginas e páginas. No meio do trabalho, minha filha morreu. Eu, então, com aquele material todo na mão, me desesperei. Quase desisti. Mas de alguma forma segui e, tenho que dizer, a última parte foi toda permeada pela extrema dor que eu sentia.

Aos 61 anos, Miriam Goldschmidt, atriz de diretores como Peter Stein, Luc Bondy, George Tabori e Matthias Langhoff, já perdeu a conta das produções feitas ao lado de Brook, com quem chegou a fazer um safári teatral pela África nos anos 70.

Entre as produções mais conhecidas, estão Timão de Atenas, Les Iks e Mahabharata.

Seu método é não ter método. É um processo mágico. Ele consegue produzir uma onda a partir de uma roda de 11 pessoas segurando pauzinhos explica a irrequieta atriz, levantando-se para tentar mostrar a onda sobre a qual acabou de falar.

Numa feliz surpresa diante de um ano de produção medíocre, o público brasileiro teve a chance de conferir grandes montagens de Brook. Warum, Warum é a terceira de 2008

Fragments passou pelo Rio e outras capitais em junho, e O grande inquisidor esteve no festival Porto Alegre em Cena, em setembro. O quarto espetáculo do inglês, Siswe banzi est mort, chega ao Festival Internacional de Artes Cênicas da Bahia dia 24. É uma amostra da busca pela simplicidade da qual o diretor se aproxima cada vez mais.

Há nove anos, Peter me chamou para fazer Dias felizes, de Beckett. Não aceitei porque a personagem só falava e quase não se movia. Era matemático, como uma prisão. Anos depois, estava pronta para essa redução, esse despojamento confessa a atriz, que apresentou o texto de Beckett na capital gaúcha em 2005, em sua primeira visita ao Brasil.

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