Festival de Brasília dilui a safra de produções de qualidade

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO - A programação do 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, divulgada ontem por seus organizadores, expõe a fragilidade da safra nacional de filmes de ficção, que começou a se desenhar ainda no início do ano, no Cine PE.

O festival começa dia 18 de novembro, com a projeção da versão restaurada de São Bernardo (1973), de Leon Hirszman, e se encerra dia 25 com a exibição de uma cópia nova de Lance maior (1968), de Sílvio Back.

Quatro dos seis títulos que competem pelo troféu Candango de Melhor Filme desse ano são documentários, gênero que virou febre entre os realizadores, mas tem enfrentado problemas de escoamento no circuito Juízo, de Maria Augusta Ramos, o recordista até agora, fez pouco mais de 17 mil espectadores.

Siri-Ará, de Rosemberg Cariry, o candidato do Ceará, drama sobre a fundação do Estado, e FilmeFobia, de Kiko Goifman, de São Paulo, sobre as aversões mais comuns na sociedade contemporânea este uma experimentação de linguagem documental não têm elenco conhecido do grande público.

Brasília 2008 serve de plataforma de lançamento para os documentários Ñande guarani (Nós guarani), de André Luís Cunha, sobre os problemas enfrentados pelo índios guaranis, O milagre de Santa Luzia, de Sergio Roizenblit, sobre a importância da sanfona de Luiz Gonzaga para a música brasileira, Tudo isso me parece um sonho, de Geraldo Sarno, sobre o general José Ignácio de Abreu e Lima, pernambucano que lutou nas fileiras de Simón Bolívar, e À margem do lixo, de Evaldo Mocarzel, sobre catadores de papel.

Vinte e oito longas inscritos

No início de maio, no encerramento do Cine PE, em Recife, o júri da crítica decidiu premiar apenas os curtas, alegando que a qualidade dos longas-metragens em concurso era fraca. A reportagem do Jornal do Brasil apurou que grande parte da competição do festival pernambucano, vencida por Nossa vida não cabe num Opala, de Reinaldo Pinheiro, fora composta por títulos que não passaram pela peneira de Brasília, no ano anterior.

Ao longo de 2008, as produções mais aguardadas da temporada, como A festa de menina morta, de Matheus Nachtergaele, e Feliz Natal, de Selton Mello, se revezaram na grade de outros festivais, como o de Paulínia (São Paulo), o de Gramado (Rio Grande do Sul) e os recém-encerrados Festival do Rio e Festival de Curitiba.

Vinte e oito títulos de longa-metragem se inscreveram para Brasília esse ano, a mais tradicional e rigorosa competição de filmes do país. Em 2005 foram 40.

Não dá para dizer que Brasília sofreu com a suposta baixa qualidade da safra deste ano. A comissão de seleção deliberou sobre os escolhidos a partir do conjunto de filmes inscritos, no qual os documentários se destacavam. Temos que levar em consideração também que nosso festival sempre acolheu muito bem os filmes de não-ficção entende Fernando Adolfo, diretor artístico do festival e integrante da comissão de seleção.

Apesar de ser o último grande festival brasileiro do ano, Brasília sempre conseguiu tirar vantagem de sua posição no calendário de eventos cinematográficos. Diretores de prestígio, como Júlio Bressane e Carlos Reichenbach, preferem guardar seus filmes para o certame no cerrado.

Mas este ano muitas produções com perfil de prestígio aguardadas para 2008, como Budapeste, de Walter Carvalho, Hotel Atlântico, de Suzana Amaral, e Família vende tudo, de Alan Fresnot, estancaram em alguma fase da produção.

Claro que acompanho o progresso dos filmes que desejaria ver em Brasília, especialmente de realizadores ligados com a história do festival, como Walter Carvalho. Mas as engrenagens de produção brasileira são complicadas argumenta Adolfo.

Muitas vezes, um diretor consegue rodar o filme, mas fica dependendo de verba para finalizá-lo, ou mesmo tirar uma cópia.

Brasília, que exige candidatos inéditos, também sofre com a crescente competitividade entre os próprios festivais de cinema, que se multiplicam pelo país e, tentam atrair produtores com altos prêmios em dinheiro. O de Curitiba ofereceu R$ 110 mil ao Melhor Diretor e R$ 80 mil ao Melhor Filme.

Paulínia contemplou o Melhor Filme com R$ 60 mil, enquanto o Melhor Diretor levou R$ 30 mil. Brasília premia a primeira categoria com R$ 80 mil e a segunda com R$ 20 mil. Fernando Adolfo sequer cogita a mudança da data do festival:

São cerca de 132 festivais no Brasil inteiro, cada um com perfil diferente. Uns são voltados aos filmes de mercado, outros privilegiam a qualidade artística. Continuamos fiel ao nosso perfil. Brasília tem um um desenho muito específico, que busca a reflexão cinematográfica.

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