Ed Motta lança CD e descarta influência de Tim Maia

Leandro Souto Maior, JB Online

RIO - Nos motivos que levam um artista a gravar todos os instrumentos em seu

álbum podem ir do virtuosismo ao perfeccionismo. Prince, Lenny Kravitz

e Arnaldo Baptista são alguns dos que gostam de experimentar a

produção solitária. Assim como seu tio, Tim Maia, Ed Motta também

passeia por diversos instrumentos incluindo a bateria. O cantor

demorou nove discos para decidir assumir toda a execução em um álbum,

e apresenta o resultado em seu mais novo CD, Chapter 9, que

está sendo lançado tanto no formato físico quanto no formato virtual,

para download gratuito no site de sua gravadora, a Trama.

Em entrevista ao JB Online, Ed Motta explicou porque tocou

todos os instrumentos no disco, porque resolveu disponibilizar as

músicas gratuitamente na internet e descarta influência de Tim Maia.

JB Online: Neste novo álbum, você gravou todos os instrumentos.

Era um sonho que você sempre teve, fazer esse tipo de produção?

Ed Motta: Foi absolutamente por acaso. Eu entrei em estúdio para fazer

uma fita de demonstração para mostrar as músicas, e comecei a conviver

com essa fita e a achar interessante. Aí o João Marcelo Bôscoli, da

Trama, ouviu e disse 'se você for gravar essas músicas de novo, elas

vão perder a essência'. E essa fita, que é o disco que eu estou

lançando, eu gravei já em um estúdio com bons microfones e bons

instrumentos, enfim, como se fosse um disco. Gravei valendo, mas não

imaginava que iria virar o disco. Então foi curioso, porque entrei no

estúdio sem saber que seria o disco, então tem uma cara

descompromissada, tem algo relaxado. Achei até engraçado quando eu li

algumas pessoas falando que eu tava complicando, premeditando tudo...

foi o disco mais espontâneo que eu já gravei, a coisa mais espontânea

que eu já fiz.

JB Online: E como você pretende apresentar esse disco ao vivo?

Ed Motta: Como esse ano eu estou fazendo 20 anos de carreira, 20 anos

do meu primeiro disco, de 1988, então o show vai ser bem 'greatest

hits', com algumas músicas desse disco novo. O show vai ter de tudo.

JB Online: Alguns de seus últimos álbuns, como Dwitza e

Aystelum, são bastante autorais. Você fez o que queria fazer,

sem se preocupar se vai para a novela, se é comercial. Chapter

9 mantém esse aspecto, de ser um álbum bem autoral?

Ed Motta: Sim. Esse disco é uma ode à liberdade estética. Não assumi

nenhum tipo de compromisso. É um disco liberto dessas coisas. É aquilo

que eu queria fazer naquele momento. Se me colocar dentro de um

estúdio agora, não sei o que pode sair. Eu espero que seja algo

diferente, né?

JB Online: Você falou que o João Marcelo Bôscoli comprou a

idéia desse novo lançamento. Em nenhum momento te cobram uma nova

Colombina, um novo Fora de lei, um grande hit daqueles.

Ed Motta: Essa é uma das vantagens de estar em uma gravadora como a

Trama, que é uma gravadora que faz ações como essa, de colocar um

disco na rede para ser distribuído gratuitamente. Eles criam um forma

progressista de trabalho, então existe uma comunhão conceitual entre a

Trama e o que eu faço.

JB Online: Você acha que o CD vai ser substituído pela

internet, e os artistas vão ganhar apenas com os shows?

Ed Motta: No caso do meu disco, ele é olhado como se fosse uma rádio

ou uma televisão, onde as pessoas não pagam para ver televisão ou para

escutar rádio, mas têm os anunciantes. Se você entrar no site da Trama

Virtual, tem lá um anunciante, que é o patrocinador do disco. Então,

acho que isso vai ser uma maneira de se vender a música. Não apenas

essa idéia que só o show vai dar sustento aos artistas de música. Mas,

sinceramente, eu não tenho nenhuma profecia a respeito disso, porque

eu vivo num mundo completamente a parte, já que eu sou um colecionador

de vinil. A revista que eu leio é uma revista que só fala de vinil, e

eu vivo dentro de uma bolha de vinil, passando no meio de toda essa

coisa digital. Até uso i-pod quando vou viajar, mas o i-pod está

entupido de vinil!

JB Online: Dentro desse seu mundo a parte, tem espaço para os

vinhos. Qual vinho você sugere para escutar seu novo disco?

Ed Motta: Sugiro que seja um branco no começo e da metade para o fim

que seja um tinto. Que dê para tomar os dois, que é sempre o que eu

gosto de fazer, tomar um branco e um tinto. Nunca gosto de tomar um um

sabor só. Gosto sempre de variar uma sensação de acides contrastando

com uma sensação de opulência, de frutas, essas loucuras!

JB Online: Não tem como não lembrar que você é sobrinho de Tim

Maia. Já faz tempo que tem uma carreira consolidada, não precisa

provar nada a ninguém, e acredito até que atualmente talvez você fique bem a

vontade para assumir uma influência do Tim Maia. Queria que você

dissesse se existe e onde tem Tim Maia no seu som?

Ed Motta: Eu não escuto muito nos meus últimos discos. Pode ser que

exista e eu não esteja percebendo a influência. Acho que tinha mais

nos meus primeiros discos, na época que eu só ouvia soul e funk, que

eu continuo ouvindo, e continuo achando bom, mas meu universo na

música era mais fechado. Era só uma coisa. Acho que atualmente, quando você escuta meu disco, ele passa longe de Tim Maia, não tem nada a ver.

JB Online: E o que você tem escutado, e que possa ter

influenciado o novo trabalho?

Ed Motta: Tenho escutado muita trilha de filmes. Mas esse disco novo

tem várias caras, vários temperamentos. Tem uma hora que fica uma

coisa mais pop, mas também é o meu disco que tem mais influência de

rock, que é um som que eu escuto desde moleque mas nunca apareceu na

minha música. Então tem uma ampla palheta de influências. É um pouco

de todas as informações que eu vou adquirindo, não só com discos, mas

com tudo, vendo um filme. Eu não sou um letrista, nem quero ser, então

os meus sentimentos, as minhas observações, tudo aquilo que eu tenho

vontade de passar, é em forma de harmonias e melodias e interpretações

abstratas do mundo. E vejo muito filmes, adoro cinema, e procuro

sempre manter a narrativa dos filmes na minha música.

JB Online: Aqui no Rio nós estamos perdendo o Paissandu...

Ed Motta: Ah é?! Não sabia...

JB Online: Você tem relação com esse cinema? E o que você acha

que isso representa para a cidade do Rio?

Ed Motta: Muito triste isso, porque foi um cinema em que várias

gerações se formaram assistindo os ícones do cinema de arte. Eu não

fui um freqüentador do Paissandu. Sou da geração vídeo cassete. O que

passava no Paissandu eu descobri dentro de casa, vendo no vídeo

cassete. É um símbolo cultural da cidade que não poderia ter sido

deixado de lado jamais.