Conflito no Iraque é tema do filme 'The hurt locker'

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

VENEZA, ITÁLIA - Guerra do Iraque chegou este ano ao 65º Festival de Veneza com gosto de déjá vu. The hurt locker, de Kathryn Bigelow, exibido nesta quinta-feira na competição, pretende oferecer uma nova faceta da campanha americana no Oriente Médio. Protagonizado por atores pouco conhecidos do grande público, aqui ancorados pelos hollywoodianos Guy Pearce e Ralph Fiennes, que funcionam literalmente como bucha de canhão, o filme chamou mais atenção por suas ligações com o momento da política dos Estados Unidos do que propriamente por seus valores cinematográficos.

Tenho esperança de que as forças americanas voltem em breve para casa. Há apenas um homem capaz de fazer com que isso aconteça e esse homem é (o candidato democrata à Presidência) Barack Obama confessou a diretora, conhecida pela autoria de filmes viris, como Caçadores de emoção (1991) e K-19 The widowmaker (2002).

The hurt locker acompanha uma temporada de um grupo de especialistas em desativação de bombas no Iraque. À frente deles está o destemido sargento William James (Jeremy Renner), que lidera missões suicidas para desarmar bombas caseiras plantadas por inimigos e em homens-bomba, ao mesmo tempo em que tenta proteger os civis pegos no meio do fogo cruzado. O roteiro é do jornalista Mark Boal, que acompanhou as atividades dos soldados americanos em Bagdá entre 2003 e 2004. Boal é também autor da história de No vale das sombras, uma trama de mistério envolvendo a morte de um cadete em território americano, depois de voltar do Iraque, exibido em Veneza no ano passado.

O filme fala sobre soldados voluntários, que escolhem participar daquele conflito distinguiu Kathryn, ex-mulher do mega-diretor e produtor James Cameron (Titanic). Meu interesse era dar à Guerra do Iraque uma cara humana, permitir que o espectador experimente o que os soldados passam quando estão em campo. Realismo e verdade sublinham todas as imagens dele.

A história de The hurt locker é narrada em estilo documental, embora o gênero não tenha sido concebido como um valor estético , como defendeu a diretora. A trama articula-se em torno de momentos de tensão e rompantes de violência que às vezes não se realizam e, basicamente, desenha uma imagem favorável de homens que vêem a guerra como um vício, a única maneira de se sentirem verdadeiramente vivos.

Li um artigo no The New York Times que se referia a esses soldados viciados em guerra e achei nele a perspectiva psicológica de que eu precisava para falar sobre o lado humano desses jovens explicou Kathryn.

A diretora contou que, ao contrário do que aconteceu durante a Guerra do Vietnã, o acesso aos americanos a materiais sobre a Guerra do Iraque é extremamente limitado.

Temos pouco acesso a imagens e a qualquer tipo de material que nos dê uma vaga idéia do que está realmente acontecendo lá. É dessa escassez que nasceu a minha intenção de investigar mais a fundo essa lado do conflito que nos é oculto disse a diretora, usando mais ou menos a mesma justificativa do diretor Brian de Palma para fazer Redacted, que competiu pelo Leão de Ouro no ano passado. Não há registros sobre o que o Exército americano está fazendo no Iraque. Vemos muito pouco sobre a guerra na televisão ou nos jornais. Mark Boal passou bastante tempo em Badgá acompanhando algumas dessas missões e então pudemos saber o que acontece com nossos soldados.

The hurt locker chega ao público num momento em que os filmes inspirados pelo conflito no Oriente Médio registram sinais de evidente desgaste. Embora dirigido pelo diretor ganhador do Oscar Paul Haggis e estrelado por Charlize Theron e Tommy Lee Jones, No vale das sombras arrecadou apenas US$ 6,5 milhões em dois meses em cartaz nos Estados Unidos. O thriller O suspeito, com Resse Whiterspoon e Jake Gyllenhall, também lançado em 2007, fechou a carreira com US$ 10 milhões. Sensação de Veneza em 2007, onde cravou o prêmio de Direção, Redacted foi lançado em 15 cidades e faturou meros US$ 25 mil. Greg Shapiro, produtor do filme de Bigelow, reconhece as dificuldades que terá pela frente:

A gente sabe que até o momento não há grande interesse do público em assistir a filmes sobre a Guerra do Iraque. Mas esperamos que The hurt locker, que mostra o conflito sob um novo ponto de vista, rompa com essa tendência.

Inland, de Tariq Teguia, o candidato argelino da competição, é o recordista em evasão de espectadores das sessões para a imprensa. Descreve o estado de torpor e de indignação de um topógrafo contratado para estudar a instalação de uma rede elétrica entre as aldeias e a cidade grande. Hostilizado pela polícia local, o sujeito acolhe uma imigrante negra, fugitiva de um país vizinho em conflito, e decide levá-la até a fronteira do país com o Marrocos. O filme exige disposição do espectador para vencer as duas horas e 20 minutos e a aridez dos diálogos e da paisagem.

Quis mostrar no meu filme a Argélia mais profunda, esquecida. Daí a abordagem contemplativa, porque o povo daquela região é assim explicou o diretor.

Veneza conhece nesta sexta-feira os dois últimos filmes da competição, o americano The wrestler, de Darren Arronofsky, e o italiano Il seme della discordia, de Pappi Corsicato. Os vencedores deste ano serão revelados em cerimônia a ser realizada neste sábado à noite.