Concorrente argelino afugenta platéia em Veneza

Portal Terra

VENEZA - A maioria dos filmes em competição exibida até agora apresentou razões para se discutir a favor ou contra, mas o título argelino Gabbla (ou interior, no sentido geográfico do termo) foi o único a provocar uma debandada geral de jornalistas da sessão.

É verdade que o festival já caminha para o final, com apenas mais dois filmes a ser apreciados em concurso, o italiano Il Seme della Discordia - um título dúbio no caso, que sugere o sentido universal de A Semente da Discórdia, mas também O Sêmen da Discórdia, já que se trata da mulher de um jovem estéril que aparece grávida - e The Wrestler, do inicialmente cultuado diretor norte-americano Darren Aronofsky (Réquiem para um Sonho) que vem perdendo a mão.

Há poucas chances, portanto, do quadro de apostas se modificar com alguma surpresa.

O filme da Argélia também foi prejudicado, dessa forma, pela configuração atual da mostra.

Os jornalistas estão cansados, alguns já foram embora do Lido para acompanhar o final da decisão em casa, e a longa duração da fita, de 140 minutos, seus intermináveis planos e a pouca ação só fez piorar esse painel.

O drama do diretor Tariq Teguia está longe de ser descartável, mas para compreender sua proposta há que se vencer a aridez - que nesse caso, vale o trocadilho, corresponde à narrativa e ao cenário do deserto argelino.

Um técnico contratado vai para o interior do país para começar a instalar a rede elétrica entre as aldeias e ligá-la à capital. Num desses lugares isolados e miseráveis, é bem recebido por alguns moradores e comerciantes, mas também hostilizado por representantes do poder, como a polícia local.

Seu cotidiano também é alterado com a chegada de uma imigrante negra, fugitiva provavelmente de algum país vizinho em conflito. O homem a acolhe, mas logo ambos são obrigados a fugir.

O diretor tem pouca disposição para comentar o contexto de seu filme, mas essa explicação seria importante para entender a razão de alguns dramas em jogo. Ofereceu, contudo, algumas pistas na entrevista aos jornalistas.

- Queria mostrar uma Argélia mais profunda do que aquela urbana das grandes cidades, que está esquecida, abandonada - diz.

- Por isso escolhi um tom contemplativo, meditativo, porque a gente daquela terra do deserto é assim.