Companhia russa de balé faz turnê e põe tradição do país à prova

Rachel Almeida, Jornal do Brasil

RIO - A mesma terra que sedia o mundialmente aplaudido Kirov Ballet está arriscada a colecionar embustes. É o que garante o empresário Konstantin Tachkin, que, há 15 anos, organizava espetáculos de balé clássico em São Petersburgo, na Rússia, para turistas.

A última empreitada no ramo o deixou tão insatisfeito que motivou a criação de sua própria companhia, em 1994. Sem nunca ter dançado, mas com visão empreendedora, Tachkin fundou o Saint Petersburg Ballet Theatre (SPBT), que, aclamado nos principais palcos clássicos da Europa, Ásia e África, faz agora sua primeira turnê na América do Sul.

Depois de passar por Porto Alegre, Curitiba, Londrina (PA), Maringá (PA), Brasília e Juiz de Fora (MG), a trupe chega ao Rio daqui a uma semana para dançar A bela adormecida, no Teatro Municipal, em única apresentação, às 20h30. Depois, continua a turnê por mais sete grandes cidades.

A SPBT nasceu mesmo da constatação de que eu estava contratando companhias de técnica ruim para esses espetáculos turísticos reforça, por telefone, de Londres, ao Jornal do Brasil, o diretor, que vem ao Brasil apenas para a segunda metade da turnê brasileira. A Rússia tem muitas companhias de dança e, apesar da tradição do país, a qualidade é bastante variável.

Sessenta integrantes

Tachkin aproveitou a extinção de uma companhia de dança em São Petersburgo para contratar os recém-desempregados bailarinos. Também recrutou expoentes de academias como Vaganova School de São Petersburgo, Perm School, Moscow Academy e Nureyev School de Bashkir. Hoje, muitos são solistas premiados, como a famosa Irina Kolesnikova. O corpo de baile, composto por 60 integrantes, recebe aulas diárias de professores como Svetlana Effremova, Natalya Raldugina e Aleksandr Kurkov, oriundos da Companhia Mariinsky (nome oficial do Balé Kirov).

Nossas audições são regulares explica Tachkin, que faz questão de dispensar recursos estatais. Se um bailarino se mostra interessado, rapidamente fazemos um teste. Ano passado mesmo contratamos 14 pessoas.

O repertório da companhia é composto por obras-primas do balé clássico, como O lago dos cisnes, Don Quixote e Giselle. A bela adormecida é um balé de um prólogo e três atos do compositor russo Tchaikovsky, libreto de Marius Petipa e Ivan Vsevolojsky e coreografia de Marius Petipa. Baseado no conto de fadas do escritor francês Charles Perrault, acompanha o sono da princesa Aurora, que sofre, quando nasce, a maldição de uma fada ressentida. Aurora (no Rio, o papel é da bailarina Alla Bocharova) está fadada a espetar um dedo no 16º aniversário e adormecer, tendo como única salvação um beijo de seu verdadeiro amor. Ao tradicional balé, foram adicionadas pitadas de humor que podem surpreender o público familiarizado com a coreografia.

A bela Adormecida pode ser um balé um tanto chato admite Tachkin. É claro que não mudamos nada substancial na coreografia, mas adicionamos humor.

'Portunhol' da ex-namorada

Intérprete do príncipe Désiré (ou Florimundo), Oleg Hariutkin, que estréia como solista, concorda:

É um balé duro, que exige muita saúde e personalidade cênica descreve o bailarino, no portunhol que aprendeu com uma ex-namorada brasileira. Fazemos umas pequenas brincadeiras que são engraçadas e, tenho certeza, vão agradar ao público brasileiro.

Grandioso, o espetáculo exige 47 bailarinos em cena, que usam mais de 300 figurinos. Alguns chegam a fazer oito trocas por sessão. Comandando a turnê está a produtora Natalia Mitrofanova, acostumada às exigências de um grande balé.

A bela adormecida é um espetáculo que requer muitos bailarinos. Em Londrina, chegou a ficar apertado nos camarins revela. Mesmo em turnê, há ensaios diários de quatro horas e aulas de mais de uma hora. É muita disciplina.

É com essa disciplina que o diretor já considera o SPBT concorrente do pomposo Kirov.

É claro que o Kirov tem uma história longa e nós ainda somos jovens, mas ambas as companhias já se apresentam em palcos nobres como o London Coliseum e o Champs-Elysée Theatre exulta.