O longo caminho do rock independente

Pedro de Luna, JB Online

RIO - Nos últimos tempos o Caderno B, do Jornal do Brasil, vem questionado o rock brasileiro, argumentando que o gênero vive seu pior momento em vários anos. Em parte, este discurso é sustentado pelo pequeno número de bandas que atingiram o estrelato o dito mainstream neste final da década.

De fato, daquelas que chegaram lá, há quem não seja novata como CPM 22 e Pitty, que militam no underground desde os anos 90 e há quem já até acabou, ao menos temporariamente, como é o caso do Los Hermanos.

Convidado pelo JB Online, aceitei o desafio de arriscar minha teoria. Para tal, desenhei uma espécie de Cadeia Produtiva do Rock Independente, utilizando o Bzão - o roqueiro protagonista das tirinhas que publico no Caderno B durante a semana. Acompanhe o raciocínio pelas setas e os números.

1) Uma banda começa a se formar ao menos deveria a partir de uma boa idéia ou de um sonho. Quando a motivação é o dinheiro ou outro sentimento, já começou mal.

2) O primeiro investimento de uma banda de rock é nos instrumentos e no estúdio de ensaio. Se os músicos usam instrumentos emprestados ou herdaram os mesmos de parentes e amigos poderão escapar deste custo inicial, ainda que, mais adiante, precisarão investir na manutenção dos mesmos cordas, palhetas, pedais, regulagem num luthier especializado, etc. Há quem diga que o vocalista não gasta nada, mas conheço muitos que adquiriram seus próprios microfones, principalmente sem fio.

Claro que uma banda pode ensaiar numa garagem ou num quarto, porém, convenhamos que nada se compara a uma estrutura adequada de acústica e aparelhagem. Isso sem falar no transtorno de carregar bateria e amplificadores pra lá e pra cá, quando o ensaio não acontece sempre no mesmo lugar. Por outro lado, ensaiar em estúdio significa mais alguns reais toda semana. Afinal, banda que ensaia pouco não evolui.

3) O objetivo maior de toda e qualquer banda é tocar. Não conheço um só grupo que deseje apenas ensaiar. Todos que conheci diziam que o maior prazer estava em apresentar-se ao vivo. Por incrível que pareça esta é a maior dificuldade encontrada nos últimos anos. Em parte por que 90% dos proprietários de casas noturnas e bares só querem lucro certo e sem riscos, transferindo para os artistas a responsabilidade de produzir o show. Isso significa alugar a casa e o equipamento, pagar os seguranças, fazer a divulgação, vender ingressos antecipados e cuidar da bilheteria. Nem sempre tudo isso, mas raro é o local que não exige qualquer condição dessas.

4) Mais raro ainda é a banda de rock receber alguma grana pela sua apresentação. A maioria dos músicos remunerados tocam covers, a minoria recebe pelas músicas próprias. Nem vou entrar na questão das outras exigências (carteira da OMB, nota fiscal, Ecad) para não polemizar.

Supondo que deu tudo certo, a banda tocou e ainda ganhou um dindin, para onde ele vai? Afinal, os grupos de rock são formados por, em média, quatro ou cinco pessoas. Isso se não tiver um empresário aí no meio! E dividir um cachê simbólico por tantas pessoas não vai resolver a vida de ninguém. Logo, acaba indo para a caixinha da banda, que, mais uma vez significa dinheiro para investimento.

5) Voltemos então ao ponto número 2. A banda está compondo e busca, sem sucesso, espaços para mostrar o seu trabalho. Uma alternativa é investir em divulgação (número 5) para chamar a atenção do público, da mídia, dos produtores de eventos e de outras bandas com o objetivo de ser convidada pra tocar. Mas aí entra em cena outro problema: existem cada vez menos revistas, jornais, programas de TV e rádios especializadas em rock. Sem pensar muito, eis a lista de alguns veículos que fecharam suas portas recentemente: revista OutraCoisa, Bizz, Revista da MTV, Laboratório Pop e Jornal do Rock.

É bem verdade que a falência da mídia especializada também está relacionada à crise no mercado fonográfico, que assiste a venda de CDs despencar ano a ano. Dentre as várias histórias que já ouvi, uma delas dizia que nos anos 90 um jornalista que trabalhasse em jornal diário recebia de uma gravadora a quantia equivalente a do seu salário apenas para escrever um release. Eram os tais bons tempos . Muito lucro e pouco compromisso com a ética, afinal, o dinheiro sobrava para todos os lados. Infelizmente a época que vivenciei de perto foi a das gravadoras pagando anúncio com CDs, que por sua vez eram revendidos, alimentando o ciclo improdutivo de autopirataria.

Como então resolver o 5º passo nos tempos de hoje? A primeira opção é investir em produtos como CD e merchandising (camiseta, adesivo, palheta, caneca, etc). Gravar um CD está mais fácil, grava-se até em casa, reproduz-se em CD-R. Ainda que eu preze por uma boa gravação e uma bela arte de capa e encarte. Enfim, quanto mais o nome da banda circula pela cidade, mais ela fica conhecida. Se o disco ou a camiseta será dado ou vendido, cabe a banda decidir. É, de novo, um investimento. Vencer um prêmio ou concurso também pode gerar uma boa divulgação pra banda.

A segunda opção, que a maioria vem investindo por conta do baixo investimento, é a divulgação pela internet. Acho válido, mas insuficiente. Se eu ganho um CD, eu ouço. Se me entregam um cartão com link de website ou me enchem de propaganda por e-mail, Orkut, etc, eu não escuto. O número de bandas triplicou, mas o dia continua tendo apenas 24 horas e eu tenho muitas coisas pra fazer além de baixar mp3. Acredito que outros jornalistas, executivos e formadores de opinião compactuem com este raciocínio.

A terceira via possível para se divulgar na mídia é investindo dinheiro. Não estou falando de jabá, de molhar a mão , até por que nunca vi com meus próprios olhos essas paradas rolarem. Mas veicular publicidade é um ato lícito. Se bem criada, a propaganda pode dar um ótimo retorno. Isso sem falar em promoções, encartes e videoclipes que também demandam dinheiro, mesmo na era digital do baixo custo. Assessoria de Imprensa também é um bom investimento. Algumas bandas fazem (e bem) por conta própria.

6) Uma outra forma de se conseguir tocar ao vivo é partindo pro faça-você-mesmo. Ou seja, quando o artista assume também a função de produtor. Particularmente, acho que cada vez mais os artistas não só os músicos devam empreender. Se não chamam a sua banda pra tocar num bar ou num festival, crie seu próprio evento. Dá trabalho e envolve riscos, mas gera muita satisfação. Além do mais, se você abre um canal para outras bandas tocarem, a chance de te convidarem para trocas de show é muito maior.

7) A terceira opção para uma banda conseguir, enfim, mostrar a sua cara ao vivo e a cores é fazendo uma boa música. O surreal é que isto deveria ser o mais importante em todo o processo. Os bons deveriam naturalmente ter o seu espaço, mas num mundo CÃOpitalista não é assim que funciona. É difícil, mas não é impossível. Conheço algumas bandas que recebem convites para tocar simplesmente por que são boas. E pelo fato de serem agradáveis ao ouvido, atraem o público para suas apresentações.

8) Finalmente temos a figura do fã. Muitas vezes o roqueiro não vai pagar o ingresso por que não tem grana ou por que sua prioridade foi gastar numa lanchonete ou numa lanhouse, por exemplo nem comprar o CD e a camiseta. Logo, o público não pode ser uma fonte garantida de renda para a banda. Esta é a realidade do nosso país e não mudaremos isso da noite pro dia.

Caberia a iniciativa privada (quantas casas são patrocinadas por mega empresas?) e ao governo, através de programas de fomento a cultura, remunerar os bons músicos que trabalham com afinco, ao invés de transferir para o mercado competitivo a tarefa de promover acesso e desenvolvimento. Cabe ao empresário de casa noturna mudar seu pensamento exploratório e entender que uma banda agrega valor ao seu espaço, que ela não está fazendo um favor a ele. A questão é complexa, mas se não debatermos mais e mais, não chegaremos a soluções.

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