Walter Salles: Brasil se explica pela ausência crônica de um pai

Agência AFP

CANNES - 'O Brasil se explica pela ausência crônica de um pai', afirmou neste sábado o cineasta Walter Salles, que tem seu filme, 'Linha de Passe', co-dirigido com Daniela Thomas, apresentado na competição oficial de Cannes.

Inspirada em grande parte em fatos reais, "Linha de Passe" conta a história de quatro irmãos que buscam seu caminho na vida. De pais diferentes, os quatro vivem com sua mãe, empregada doméstica que espera outro filho.

Como em "Terra Estrangeira", primeiro filme que reuniu os dois diretores, e "Central do Brasil" de Salles, "Linha de Passe" apresenta um panorama com um pai ausente.

- O Brasil se explica pela ausência crônica de um pai, historicamente. Os portugueses nos deram o nome de uma árvore, e em seguida levaram para Portugal todo o pau-brasil que existia na costa. Dessa forma, fomos batizados por um pai-padrasto que deixou o país abandonado. Talvez isso explique porque estamos sempre em busca de um pai - declarou Salles em coletiva de imprensa após a primeira exibição do filme.

- Tivemos um presidente, Getúlio Vargas, que era chamado de ''pai dos pobres'', mais uma vez o pai que se busca. Recentemente se publicou uma estatística que mostra que o número de famílias sem pai no Brasil é de cerca de 20% - enfatizou.

- O resultado é que muitas família brasileiras são dirigidas por mães corajosas que fazem o papel da mãe e do pai, elas representam para mim uma espécie de resistência moral, ética. Isso aparece no filme - explicou.

Em relação à direção compartilhada com Daniela Thomas, Salles declarou que sua "idéia era voltar ao cinema como uma aventura coletiva". - É algo difícil de fazer de maneira contínua, mas depois de vários filmes sozinho, poder voltar a essa essência coletiva e fazer um filme enriquecido por olhares diferentes alimenta não apenas esse projeto, mas também os outros - disse.

Ao comentar sobre as etapas do projeto, o cineasta brasileiro explicou que "houve uma dialético ao redor do filme como um todo", com "todas as etapas feitas a quatro mãos", com um "trabalho de liberdade que incorporou as colaborações dos atores, quase todos estreantes, que enriqueceram o roteiro com suas idéias e improvisos".

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