Almanaque revela saudade antecipada dos anos 90

Jaime Gonçalves Filho e Leandro Souto Maior, JB Online

RIO - Em 1995, Lobão lançou o pouco conhecido Nostalgia da Modernidade. Se o álbum não teve o reconhecimento merecido, ao menos seu título resume com perfeição uma tendência crescente de parte da população, estimulada pelo mercado editorial: uma inexplicável saudade (ou curiosidade) pela década imediatamente anterior a vivida. Ou seja, uma saudade por algo que ainda não deu tempo de sentir saudade.

O lançamento do Almanaque Anos 80, trazendo lembranças, curiosidades e peculiaridades da década - da gastronomia aos brinquedos, passando por música e cinema - foi um grande sucesso. A ocasião era mais que propícia. Era meados dos anos 2000 e a saudade da década de 80 estava batendo forte. Com a grande procura, não demorou o lançamento do Almanaque Anos 70.

Como que ainda tentando capitalizar pelo sucesso dos antecessores, chega a hora do Almanaque Anos 90, só que desta vez sem a distância necessária para uma avaliação mais precisa do que realmente foi relevante no período. O livro traz na capa uma sátira da famosa foto da capa do álbum "Nevermind", do Nirvana. Enquanto que o Almanaque Anos 80 trazia o jogo Genius, revelando que as quiquilharias eletrônicas da época deixaram sua marca, a capa do novo lançamento sugere que a música deu o tom da década.

Se ao folhear as páginas do livro o leitor irá se deparar com uma avalanche de futilidades e 'ícones' culturais esquecíveis, lá ele também vai encontrar o boom das 'cantoras ecléticas brasileiras', o movimento mangue beat do Recife, o Pulp Fiction de Quenti Tarantino.

Silvio concorda que a música deu o tom da década de 1990. Não à toa, a do livro é uma sátira ao álbum Nevermind, do Nirvana. Ele lembra que foi neste período a MTV chegou ao país e que o Brasil chegou à sexta posição entre os maiores vendedores de discos do mundo.

- De fato, foram anos de muita música. e teve pra todos. Dance music, rock alternativo, heavy metal, MPB, mangue bit, axé, pagode, funk, sertanejo. O Nirvana teve o papel de abrir o mercado para as hordas do subterrâneo, derrubando o "Dangerous" do Michael Jackson do topo das paradas - o que foi muito simbólico - em seu caminho. Nos 90, experimentou-se muito, fez-se muita música e consumiu-se muita música.

O movimento 'grunge', que teve no Nirvana seu principal expoente, não se tratava de uma coisa nova de fato. Analisando friamente, no início dos anos 90 não acontecia nada muito relevante na música internacional, e o grunge foi impulsionado muito pela escassez do cenário. Enquanto que nos anos 80 vimos o surgimento do fenômeno Eddie Van Halen, trazendo um jeito totalmente novo de se tocar o instrumento, o grunge olhava para o passado, e não para o futuro, apenas reciclando o rock dos anos 70, de grupos como Black Sabbath, nos trabalhos de Pearl Jam, Soundgarden ou Alice In Chains. Nenhuma banda do 'movimento' surgido em Seattle produziu uma carreira relevante, de vários grandes lançamentos. Lançavam um ou outro disco legal e se tornavam apenas repetição de si mesmo. A fonte secava rápido.

No Brasil, curiosamente, a história foi mais inovadora e relevante. Apesar de poucos, os principais grupos da década primaram pela mistura e geraram resultados interessantes, realmente novos, mirando no futuro. Raimundos colocou o forró no rock e Chico Science trouxe os tambores do maracatu para as guitarras. Planet Hemp polemizou e colocou o debate da legalização das drogas na boca do povo e o Rappa também promoveu um encontro interessante do reggae e dub com o pop nacional, caminho também trilhado incialmente por outros dois expoentes, o Skank e o Cidade Negra. Cássia Eller apareceu como a maior cantora do gênero dos últimos tempos e outras mulheres também garantiram presença no time das boas novas musicais da década, como Marisa Monte, Zélia Duncan e Adriana Calcanhoto.

Curioso perceber que nos anos 80 já se olhava para Led Zeppelin e os grupos da década anterior com uma distância que já os colocava na categoria de 'dinossuaros'. Quando olhamos hoje para os anos 90, a impressão ainda é de que 'foi ontem'. Parece que foi um tempo de transição, em que, mesmo com a contatação da supremacia da produção musical nacional em relação ao que foi feito no mundo, muitos dos grandes nomes de lá e de cá ainda estão aí se estabelecendo, fazendo sua história e até mesmo precisando 'provar' se vieram de fato para ficar. O almanaque que acaba de sair deveria revelar justamente a antítese de sua existência, mostrando que o período ainda não justifica uma abordagem mais específica. Seu autor discorda:

- Tem muita coisa dos anos 90 que parece pré-histórica hoje. Lembre dos primeiros celulares, da internet discada, dos cabelos Channel do pessoal de Manchester (da Madchester). Acho até que a evolução cada vez mais rápida da tecnologia - e a própria velocidade da mídia, em sua renovação de celebridades - deixou tudo mais velho mais rápido.

Na hora de pinçar os destaques que simbolizaram uma espécie de liberdade e uma quebra de preconceitos na música, o jornalista destaca o papel do Nirvana, Chico Science, Marisa Monte, Faith No More, Fatboy Slim e, surpresa, Carlinhos Brown.

Silvio diz que os anos 90 foram uma espécie de trailer para que vinha nos anos 00 - da mesma forma que muito do que aconteceu nos 90 teve seu anúncio nos 80. Sobre o desempenho do Almanaque Anos 90, diante do estouro das edições dos anos 70 e 80, Silvio diz esperar um pedacinho do sucesso dos anteriores. Os primeiros leitores, garante ele, têm se interessado mais pelo tema da TV.

Entrevista Silvio Essinger:

Qual a importância da internet e dos avanços tecnológicos da comunicação característicos da época para a produção artística e para o acesso à informação?

Toda. tente lembrar de como era o mundo antes de você ter banda larga, celular e TV a cabo.

A que você atribui o interesse 'desenfreado' pelo passado recente?

Bom, quem tinha 15 anos nos anos 90 hoje em dia tem de 23 a 33. É natural as pessoas sentirem saudade do que aconteceu nos seus anos dourados. E uma vez que o revival dos anos 80 parece ter dado o que podia dar...

O que foi mais prazeroso na elaboração do livro e o que te deu mais trabalho?

O mais prazeroso e o que deu mais trabalho foi ir atrás daquilo que eu pouco conhecia - games, animação japonesa, esportes - e descobrir que havia coisas tão interessantes e significativas quanto o Nirvana.

Você comentou também que o mais divertido foi se dar conta de quanta coisa estranha aconteceu nos 90. Dê um exemplo.

A atriz que fazia a professorinha da novela mexicana Carrossel veio ao Brasil no auge da fama e foi recebida pelo presidente Collor. Quer mais o quê?