"Aqueles dois" arrebata público no Festival de Curitiba

Angélica Paulo *, JB Online

CURITIBA - Quase cinco minutos de aplausos. Este foi o desfecho triunfal para "Aqueles dois", espetáculo da Cia. Luna Lunera, de Belo Horizonte, com texto de Caio Fernando Abreu (1948-1996), encenada na noite do último domingo no Festival de Teatro de Curitiba e que periga tornar-se o melhor espetáculo do evento.

Dirigida pelos próprios atores, que optaram por não convidar um diretor externo, a peça conta a história de Raul e Saul, dois funcionários públicos que se conhecem em uma repartição e a partir de um simples comentário sobre um filme que um deles assistiu durante a madrugada, oportunidade que têm para fugir do cotidiano árido do local de trabalho. Eles descobrem afinidades e os laços de sua amizade vão se estreitando no decorrer da peça.

- A peça surgiu através de jogos de improvisação. Foram dois meses de treinamento, que se transformaram em uma idéia de espetáculo. Depois dessa tempo, procuramos um texto que pudesse ser aplicado ao resultado que obtivemos e surgiu o conto do Caio - revelou Cláudio Dias, um dos co-diretores e ator da montagem.

Em cena, os quatro se revezam como Saul e Raul, fazendo o público participar como um quinto personagem da história. Aos poucos, conforme a amizade dos dois vai ganhando contornos e cores mais definidos, o encantamento com o trabalho dos atores aumenta na mesma progressão.

Cada um dos integrantes cuidou de uma parte específica do espetáculo. Segundo Cláudio, coube a Marcelo Souza e Silva cuidar dos objetos utilizados em cena (máquinas de escrever, gavetas, uma TV, aparelhos de som). Odilon Esteves, que vive o travesti Cíntia na minissérie "Queridos Amigos", foi o responsável pelo workshop de ações verbais, enquanto Cláudio realizou a oficina de contato improvisação.

A junção destes elementos faz com que toda a movimentação em cena - seja nos textos ou no trabalho de expressão corporal - soe verdadeira ao público, que sente a solidão de Saul e Raul, mas também a delicadeza da relação que constroem.

"Em um deserto de almas também desertas" ambos se descobrem amigos, confidentes, mas ignoram olhares e comentários de outros funcionários, alheios ao preconceito que os cerca. Ao final de quase duas horas de espetáculo, mesmo com todos os revezes da história, eles se mostram, como o próprio texto diz, altivos e cúmplices. Bravo!

*A repórter viajou a convite do Festival de Curitiba