Em época de crise das gravadoras, Ney Matogrosso valoriza o palco

Ricardo Schott, JB Online

RIO - Aos 35 anos de carreira, Ney Matogrosso distanciou-se do caminho tradicional na hora de fazer seu novo CD, "Inclassificáveis". Gravou o disco em estúdio e, antes de seu lançamento, fez um show para registrar o repertório em DVD. Um indício de que o cantor, numa época de grave crise das gravadoras, valoriza mesmo é o palco.

- Minha carreira sempre foi em show. Nunca me prendi a disco ou a gravadoras - diz Ney.

"Inclassificáveis" traz de volta para o universo do intérprete o tecladista Emílio Carrera, que tocou nos LPs dos Secos & Molhados, e artistas como Cazuza (autor, ao lado de Frejat e Ezequiel Neves, de "Pro dia nascer feliz", agora regravada) e Mauro Kwitko (que fez "Mal necessário", gravada por Ney em 1979). Também retomou o repertório de artistas da vanguarda paulistana, como Robinson Borba, autor de "Mente, mente".

- Acho horrível que tais trabalhos sejam vistos como malditos. Compositores como Itamar Assumpção nunca mais se livraram desse rótulo - lamenta.

De novidades, só o fato de Ney voltar a excursionar com banda - incluindo dois percussionistas, um deles também DJ - e músicas como "Veja bem meu bem", de Marcelo Camelo. Associado a um público mais adulto, o cantor diz atrair uma grande parcela de jovens a seus shows.

- Vejo gente jovem na platéia desde o show "Cartola ao vivo" (2002). Em tudo na vida, tenho como princípio uma atitude aberta. Não acho que o mundo de 20 anos atrás seja melhor que o de hoje.

Ney diz que não pretende seguir o exemplo de alguns artistas e partir para produções independentes ou selos menores.

- Sempre fui independente, nunca me submeti a ninguém. "Inclassificáveis", inclusive, foi oferecido à Universal, que não se interessou. Nem me preocupei, só fui oferecê-lo para outra gravadora.

Mesmo na EMI, Ney vai lançar pela Universal um box com os 18 discos mais significativos de sua obra - incluindo os lançados pela Continental, hoje esgotados e trocados pelos fãs na internet.

- Não acho chato que os fãs façam isso, é uma realidade. O fato de certos discos só existirem em MP3 dá até um aspecto de raridade - brinca.