Estréia: Bob Dylan está lá, em 'Não estou lá'

Leandro Souto Maior, JB Online

RIO - Que os Beatles estão entre os grandes da música mundial, não se discute. Com suas músicas, conquistaram o mundo. Mais com suas melodias irresistíveis que com suas letras, já que a barreira da língua impede a total compreensão da obra para os que não dominam o inglês. Os Beatles eram grandes músicos e visionários. Revelaram ter pelo menos dois grandes ídolos durante os anos que estiveram juntos: Elvis Presley e Bob Dylan.

A influência de Bob Dylan na obra dos Beatles foi devastadora. Acelerou o amadurecimento deles como compositores e a mudança da temática das letras de amor para reflexões, filosóficas até, sobre o mundo. E essa influência do Dylan não foi só nos Beatles, foi no mundo inteiro. Está tudo lá, no filme "Não estou lá", que estréia nesta sexta-feira nos cinemas.

A força da genial obra do poeta não se mostra na totalidade fora de sua língua nativa, apesar de suas melodias serem também - mais para os ouvidos atentos de raro lirismo. De vez em quando ouve-se blasfemarem heresias por aí, em conversas sobre música, que Bob Dylan canta mal, ou que é chato... Imagine Chico Buarque sem a compreensão das letras... Mesmo assim a expectativa para "Não estou lá" já é grande. Quem sabe curiosos para desvendar algo sobre os mistérios do mito. Sim, porque como o filme mostra, Dylan não foi um só, mas pelo menos seis.

Seis atores encarnam uma face de sua personalidade, durante fases diversas de sua vida. O destaque é de Cate Blanchett, a única a ficar de fato 'igualzinha' ao Dylan, não só no jeito, mas principalmente fisicamente. Ela encarna Dylan em uma de suas fases mais importantes (se é que é possível apontar uma), em meados dos anos 60, quando é vaiado por tocar guitarra elétrica, quando encontra os Beatles, quando dá algumas de suas entrevistas mais marcantes (um repórter pede para ele dizer uma palavra aos ouvintes, e Dylan diz: astronauta ). Está tudo lá, em "Não estou lá".

Injusto seria não destacar também os atores Marcus Carl Franklin - um jovem negro, aparece logo no início. Feche os olhos e ele é o próprio Dylan falando! Richard Gere faz o Dylan recluso, em outra década, e destaca-se também o recém falecido Heath Ledger.

Para os fãs, um prato cheio, emocionante, nas cenas e canções. Para quem não conhece a força da obra do Dylan, uma boa oportunidade para conferir a magia por trás da voz 'fanhosa' que encanta gerações, mesmo sem nunca querer ter encantado ninguém. Será? No caso de Bob Dylan, como o próprio filme, a partir de seu título, sugere, nunca se sabe a verdade. Na pele de um jovem negro ou de uma mulher, Dylan está lá, sem dúvida. Ou não...