Mexicano que concorre com 'Tropa de elite' é bem recebido em Berlim

Gemma Casadevall, Agência EFE

BERLIM -

O mexicano Fernando Eimbcke foi elogiado na mostra competitiva do Festival de Berlim com "Lake Tahoe", considerado um expoente do cinema latino-americano com linguagem própria.

- É um filme nascido de um processo doloroso, a morte do meu pai, na qual me dei conta de como o tempo corre de outra maneira - explicou Eimbcke, diretor que em seu segundo longa-metragem - que concorre com o brasileiro "Tropa de elite" - se consagra com um estilho que valoriza os detalhes.

Os detalhes são representados por um rapaz, Juan, que procura uma peça de reposição para seu carro que bateu em um poste, entre oficinas fechadas e mecânicos incompetentes.

Cruzamentos de estrada estáticos, em câmera fixa, são combinados com fusões de imagens em fundo preto - 'me dei conta de que esses detalhes são o mais importante do filme', disse Eimbcke.

Trabalhar com a escassez não significa, em Eimbcke, falta de minuciosidade. Nada nos 85 minutos do filme é casual, tudo faz parte do empenho de refletir como cada um transporta sua dor.

A mão da mãe aparecendo atrás da cortina da banheira, fumando, chorando e rodeada de álbuns de família, bastam a Eimbcke para refletir o desespero da mulher. Para a projeção no cinema do bairro de um filme de Bruce Lee, o diretor recorre a outra representação mínima: a tela escura, com os ruídos de kung-fu ao fundo.

Assim Eimbcke retornou ao Festival de Berlim, que visitara há alguns anos, como convidado do Talent Campus, oficina para jovens talentos, onde rodou seu primeiro longa, "Temporada de patos".

Rodado em Puerto Progreso, no México "Lake Tahoe" foi defendida no Festival de Berlim pelo diretor e por seus atores Diego Cataño, o protagonista, junto a Juan Carlos Lara e Daniela Valentine.

- Aprendi muito fazendo o personagem. Trabalhar no filme me ajudou a crescer - disse Cataño, que também atuou em "Temporada de patos".

Em outro filme da mostra, "Julia", do francês Erick Zonca, e também rodado do México, apresenta uma perseguição policial repleta de ritmo e drama.

O tema do filme é difícil: uma mulher que foi bela e sedutora, mas que se encontra à beira de um colapso físico devido ao alcoolismo - papel que cai como uma luva a Tilda Swinton -, seqüestra e maltrata uma criança de oito anos, de mãe mexicana.

Kate del Castillo é a mãe que, após perder a guarda do filho também devido ao alcoolismo, pede a Swinton que o seqüestre.

As duas se conhecem em sessões de alcoólatras anônimos e a princípio não simpatizam uma com a outra, a não ser por um motivo: cada uma vê na outra um meio - para ganhar dinheiro e recuperar a criança - respectivamente.

Zonca foi criticado na entrevista coletiva em relação à originalidade do filme, tido por alguns especialistas como derivado de "Gloria", de John Cassavetes. Já Swinton salva várias cenas, decidida a ganhar o Oscar.

- Não sei por que insistem em dizer que é um 'remake' de "Gloria" de John Cassavetes. Está errado, nunca tivemos essa intenção - enfatizou Swinton, sem convencer muito.

"Julia" tem temática semelhante ao do terceiro filme da mostra competitiva, "Gardens of the night", de Damian Harris: seqüestros infantis.

O filme de Harris, no qual John Malkovich tem um pequeno papel, parte do seqüestro de uma bela menina loira a caminho da escola e levada ao submundo da prostituição e das drogas.

A infância da menina é tratada com leveza, já que o tema da pederastia é duro o suficiente para não precisar de cenas fortes.

Quando entram na adolescência, Harris aposta em um casal de protagonistas de rostos bonitos, Gillian Jacobs e Evan Ross - filho de Diana Ross -, mais afeitos a um anúncio de moda juvenil do que para representar viciados.