Rolling Stones queriam filmar documentário no Brasil

Carlos Helí de Almeida, JB Online

BERLIM - Por alguns instantes, o Brasil chegou a ser cogitado como cenário ideal para "Shine a light", o aguardado documentário de Martin Scorsese sobre os Rolling Stones, que abriu nesta quinta-feira, dia 7, a 58ª edição do Festival de Berlim. O longa-metragem já tem distribuidor brasileiro e estréia prevista no circuito para abril.

- Íamos fazer um grande show numa praia do Rio (Copacabana, em janeiro de 2006) e achamos que seria maravilhoso se o Martin pudesse registrar aquele evento espetacular - contou Mick Jagger, vocalista do grupo de rock mais longevo do planeta, à imprensa estrangeira que superlotou a sala de conferências do festival.

A sugestão dos animados músicos ingleses, que freqüentam as paradas de sucesso desde o início dos anos 60, não parece ter entusiasmado o também legendário diretor americano.

- Pensamos que poderíamos filmar aquele show de forma grandiosa, em tecnologia Imax (sistema de filmagem e projeção que dá ao espectador a sensação de mergulhar na ação vista na tela) ou mesmo 3D. Conversei sobre isso com o Martin e ele disse: "Não sei... Não gosto muito dessa idéia". Foi assim que surgiu a idéia de filmarmos no Beacon Theatre (em Nova York), em um dos trechos finais de nossa recente excursão americana - lembrou o roqueiro, de 64 anos, ao lado dos companheiros de estrada Ron Wood, Keith Richards e Charles Watts, reproduzindo a suposta careta de reprovação de Scorsese.

Por duas noites consecutivas de outubro de 2006, o autor de marcos da história do cinema contemporâneo como "Taxi driver" (1976) e "Touro indomável" filmou a performance dos Stones no pequeno teatro de Manhattan. As apresentações foram cobertas por 16 câmeras, coordenadas pelo premiado diretor de fotografia Robert Richardson ("O aviador"), à frente de uma equipe de fotógrafos ilustres, como John Toll ("Coração valente"), Andrew Lesnie ("O senhor dos anéis"), Stuart Dryburgh ("O piano"), Robert Elswit ("Boa noite e boa sorte"), Emmanuel Lubezki ("A lenda do cavaleiro sem cabeça") e Ellen Kuras ("Brilho eterno de uma mente sem lembranças").

"Shine a light" deixa escapar o receio de Scorsese sobre a possibilidade de a parafernália do cinema interferir no desempenho do grupo. No início do documentário, vemos os Stones em diferentes etapas da turnê americana, preocupados com a praticidade do cenário criado especialmente para o show em Nova York.

Scorsese parece dividido entre a necessidade de controlar todos os aspectos do show - inclusive na seleção musical, o set list da apresentação - e, ao mesmo tempo, tornar invisível o trabalho de direção.

- Acho que o filme, num certo sentido, transmite a ansiedade predominante, que era a vontade de capturar a energia dos Stones e não deixar que a máquina que eu criei para fazer isso ficasse no caminho da banda - explicou o diretor, de 65 anos, ganhador do Oscar por "Os infiltrados" (2006).

- A questão principal do projeto sempre foi essa: como conjugar esses dois fatores. De uma certa maneira, esse problema reflete o absurdo que é tentar dar início a qualquer tipo de filme. E esta é a parte mais divertida do processo.

Nos bastidores, o ex-presidente americano Bill Clinton surge como coadjuvante de luxo, no papel de velho admirador da banda. No palco, os Stones recebem convidados como Christina Aguilera, Buddy Guy e Jack White (dos White Stripes). O show ao vivo é entremeado com trechos de antigas entrevistas com os membros do grupo, contextualizando o espírito e a trajetória dos velhos roqueiros.

- A intenção de Martin era capturar a performance dos Stones, e não fazer um filme. Ele tentou fazer tudo discretamente, de forma que pudéssemos subir no palco e fazer um dos nossos shows, sem ter a consciência de que havia alguém filmando aquilo tudo. Essa é uma das belezas de "Shine a light" e foi Martin quem tornou isso possível. A parafernália não era visível para nós - elogiou Keith Richards.

- Foi apenas como subir no palco e fazer um show dos Stones, como tantos outros que já fizemos.