'Tropa de elite' quer abrir nova frente internacional em Berlim

Carlos Helí de Almeida, JB Online

BERLIM - "Tropa de elite" abre nova artilharia pesada, agora no Festival de Berlim, que começa hoje na capital alemã. O filme de José Padilha espera deixar para trás as polêmicas e a pirataria no Brasil para, afinal, ganhar o mundo. O alvo agora é a disputa pelo Oscar 2009. Depois de ser preterido à indicação para Melhor Filme Estrangeiro este ano (a nomeação oficial foi para "O ano em que meus pais sairam de férias", que não chegou à lista final de indicados), 'Tropa' poderá disputar, em 2009, as categorias principais do prêmio - depois de ter estreado (ainda em circuito limitado) nos Estados Unidos no último dia 25.

Berlim representa o início da carreira européia do filme de maior bilheteria do cinema nacional em 2007 e também a primeira grande chance de exposição internacional para o longa, que está na mostra competitiva do evento. Lá fora, 'Tropa' é representado pela Weinstein & Co., a empresa do superprodutor Harvey Weinstein.

- Esperamos nos divertir bastante, ver bons filmes, tomar cerveja alemã e conversar sobre cinema. A Weinstein não nos deu orientação a respeito de como vender o filme para o público estrangeiro. Até porque nós só vamos apresentá-lo, quem vai vender o filme são eles - avisa Padilha, que chegará a Berlim acompanhado do produtor Marcos Prado e do ator Wagner Moura, protagonista do filme.

Quatro anos atrás, Berlim perdeu três filmes de sua seleção oficial - "Diários de motocicleta", do brasileiro Walter Salles, estava entre eles - para seu rival maior, o Festival de Cannes, obrigando a organização a reimprimir de uma hora para a outra toda a programação do evento. Ao garantir "Shine a light", o muito aguardado documentário de Martin Scorsese sobre a banda Rolling Stones, para a gala de abertura da 58ª edição da mostra, hoje à noite, o diretor da maratona alemã, Dieter Kosslick, vinga-se em grande estilo.

- Estamos falando sobre o filme de Scorsese há pelo menos um ano e, claro, os diretores de todos os festivais de cinema do planeta estavam brigando por ele - diz.

Kosslick confirmou o filme e a presença não só do cineasta americano, mas também dos quatro integrantes do grupo inglês (Mick Jagger, Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts) no Berlinale Palast, o principal cinema do festival.

- Tê-los em Berlim é uma grande conquista.

A presença dos Stones reafirma o flerte de Berlim com o mundo da música. Em edições recentes, a Berlinale, como é conhecida entre os alemães, já recebeu o inglês George Michael, o americano Marilyn Manson e o australiano Nick Cave e até um documentário sobre o chorinho brasileiro ("Brasileirinho", de Mika Kaurismaki).

A programação deste ano, que fica em cartaz até o dia 17, está recheada de atrações pop - na frente ou atrás das câmeras. Madonna exibe "Filth and wisdom", seu primeiro trabalho como realizadora, em cartaz na seção Panorama. Patti Smith, a madrinha do punk, acompanha a exibição do documentário "Patti Smith: dream of life", de Steven Sebrin. E Neil Young mostra "CSNY Déjà vu", no qual registra uma excursão da banda Crosby, Stills, Nash & Young.

Embora dê especial atenção à música, a Berlinale não perdeu seu componente político. Entre os 21 títulos que concorrem ao Urso de Ouro de Melhor Filme está o documentário americano "S.O.P. Standard Operating Procedure", de Errol Morris ("Sob a névoa da guerra"), sobre as torturas a presos iraquianos na prisão de Abu Ghraib. Além do próprio "Tropa de elite", uma radiografia sobre o papel do tráfico, da polícia e da classe média na violência carioca. O júri oficial da Berlinale é presidido pelo legendário diretor grego Konstantinos Costa-Gavras, autor de obras seminais do cinema político, como "Z" (1968) e "Estado de sítio" (1973).

O grupo vai deliberar sobre um conjunto heterogêneo de filmes. Alguns contam com o brilho adicional do star system hollywoodiano. Entre esses estão "Sangue negro", estrelado por Daniel Day-Lewis, candidato a nove categorias do Oscar; "Fireflies in the garden", com Julia Roberts, e "The other boleyn girl", com Natalie Portman, Scarlett Johansson e Eric Bana.

Sinal do crescente prestígio da Berlinale é o número de filmes submetidos à seleção, que nesta edição chegou ao recorde de 5 mil.

- Conseguimos uma ótima safra de filmes este ano e pudemos oferecer uma seleção diversificada e atual do cinema no mundo. Foi apenas uma questão boa sorte e ótimas relações. Certamente, não foi por causa de dinheiro, porque não pagamos para ter filmes aqui - diz Kosslick, alfinetando festivais recém-criados, como o de Roma.

A representação brasileira se estende por outras mostras. A Panorama, cujo vencedor é eleito pelo público, exibe "Maré - nossa história de amor", de Lúcia Murat. "Mutum", de Sandra Kogut, e "Cidade dos homens", de Paulo Morelli, ganharam vagas nas seções Kplus, para um júri de crianças, e Generation 14Plus, para jurados adolescentes. A programação de curtas vai contar com "Dreznica", de Anna Azevedo, na competição oficial, e "Café com leite", de Daniel Ribeiro, na Generation 14Plus.