Filme premiado em Cannes gera polêmica sexual

Agência ANSA

ROMA - "XXY", a obra-prima da cineasta argentina Lúcia Puezo, filme vencedor da Semana da Crítica do Festival Internacional de Cinema de Cannes, se tornou alvo de polêmica devido ao seu título.

O longa-metragem mostra a difícil relação de Alex, um adolescente hermafrodita, com o mundo ao seu redor, que o vê como uma menina.

"O filme é muito bonito e mostra com grande sensibilidade os possíveis problemas dos hermafroditas e da sua família, mas o título é totalmente enganador", disse hoje na apresentação do filme Paola Grammatico, diretora do laboratório de Medicina Genética de San Camillo-Forlanini.

"Na medicina, XXY é, na verdade, uma mutação genética, a de Síndrome de Klinefelter, que só atinge o sexo masculino e não é ligada a distúrbios de função ou identidade sexual, o que muito diferente da ambigüidade genital,", esclareceu.

A Síndrome de Klinefelter é uma anomalia cromossômica que causa esterilidade; o homem possui função sexual normal, mas não consegue produzir espermatozóides.

O endocrinologista Antonio Radicioni, membro da União Italiana de Síndrome de Klinefelter, concorda com Paola. "Uma característica comum dessa anomalia cromossômica é a ambigüidade sexual, que atinge um bebê do sexo masculino a cada 500".

"Os rapazes que são afetados pela síndrome tendem a ser depressivos, e o equívoco do filme não os ajuda em nada", lamentou o médico.

Lúcia Puenzo, filha do cineasta Luis Puenzo (de "A História Oficial"), disse que "não queria falar de um diagnóstico preciso. O título do filme é uma metáfora da interssexualidade em geral. O meu trabalho não é um documentário, mas uma história de ficção, um convite a olhar o que acontece com uma pessoa que não se encaixa na divisão social e binária feminino-masculino".

A cineasta já está preparando o seu próximo filme. "Vou adaptar para as telas o meu primeiro romance, 'El niño Pez', cuja protagonista é Lala, uma jovem burguesa argentina apaixonada pela sua empregada de 17 anos", adiantou.