'Não por Acaso' entrelaça vidas e romances pela sinuca

REUTERS

SÃO PAULO - Vencedor de quatro prêmios no festival de Recife, em abril, o drama 'Não por Acaso' marca a estréia do curta-metragista Philippe Barcinski em longa-metragem. O filme tem no elenco Rodrigo Santoro, Leonardo Medeiros e Letícia Sabatella. Carioca radicado em São Paulo e curta-metragista premiado por trabalhos como 'Palíndromo' (2001) e 'A Janela Aberta' (2002), que concorreu na competição oficial de curtas no Festival de Cannes, Barcinski mantém seu estilo, marcado por uma construção rigorosa.

O enredo de 'Não por Acaso' estrutura-se em duas histórias que correm paralelas com protagonistas distintos, embora de igual peso (Leonardo Medeiros e Rodrigo Santoro). Unindo as duas histórias, há um acidente de carro. O desastre provoca a morte de duas mulheres e desencadeia uma trama sobre a dificuldade de lidar com a perda do ponto de vista masculino. No centro deste roteiro, assinado por Barcinski, Fabiana Werneck e Eugênio Puppo, há uma paixão pela idéia de exatidão e de controle, que governam a mente dos dois personagens principais, o jogador de sinuca Pedro (Santoro) e o controlador de trânsito Ênio (Medeiros).

Pedro esmera-se na criação de jogadas complexas e de difícil execução, que sejam capazes de desconcertar os adversários. As jogadas foram criadas pelo próprio diretor, com a assessoria do especialista Renato Da Mata.

O controlador de trânsito Ênio exerce o poder de orientar o fluxo das ruas de São Paulo, às vezes ordenando o bloqueamento de algumas vias para que se esvaziem outras.

Nada mais paulistano do que enfocar o trânsito da metrópole que é, assumidamente, um personagem indispensável na vida de todos no filme, assim como na dos demais habitantes da cidade. Desta maneira, brotam na tela paisagens como o conhecido viaduto Minhocão, onde Ênio passeia nos finais de semana com a filha Bia (Rita Batata, em seu primeiro grande papel no cinema), a quem ele acaba de ser apresentado.

Embora soubesse de sua existência, Ênio sempre se recusou a conviver com ela, assim que a ex-mulher (Graziela Moretto) refez sua vida com outro homem que assumiu a paternidade. Depois da morte da mãe, a moça aproxima-se do pai biológico, que vive trancado numa defensiva afetiva, seduzindo-o pouco a pouco para descobrir este novo relacionamento.

A interpretação ao mesmo tempo intensa e sutil de Leonardo Medeiros, premiado em Recife, sustenta esse foco narrativo com total credibilidade. Ele cria aqui um de seus grandes papéis na tela, comparável ao do guerrilheiro encurralado do drama político 'Cabra Cega' (2004), de Toni Venturi, e do irmão mais velho de 'Lavoura Arcaica' (2001), de Luiz Fernando Carvalho -- pelos quais foi premiado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Na outra vertente da história, o jogador Pedro sofre uma grande perda. No princípio, ele vivia um relacionamento apaixonado com a jovem Teresa (Branca Messina). Quando ela morre, Pedro sente-se imensamente ferido e indefeso. Salva-o o acaso de conhecer a inquilina para quem Teresa alugou seu antigo apartamento, a executiva Lúcia (Letícia Sabatella).

Mulher de negócios habituada ao comando de seu mundo a partir do celular e do notebook, ela não sabe como encarar a intrusão deste homem um tanto rude e desorientado em sua vida. A única resposta possível passa pela intuição.

Outro personagem do filme, este bem incômodo, é a música. A trilha de Ed Cortês, que tem no currículo trabalhos admiráveis em 'Cidade de Deus' e 'Abril Despedaçado', aqui é estridente e destoa do tom geral de contenção do filme, de resto, tão equilibrado.