'Atravessando a Ponte' usa música para contar a Turquia

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SÃO PAULO - Numa das primeiras cenas de 'Atravessando a Ponte -- O Som de Istambul', de Fatih Akin, alguém cita uma frase de Confúcio. 'Quando você chega a um lugar e deseja conhecer sua cultura, o quão profunda ou superficial ela é, então escute a música tocada lá. Você aprenderá tudo sobre esse lugar', diz o pensador chinês. Por isso, para entender Istambul, o documentário, que estréia em São Paulo nesta quinta-feira, investiga a sua música.

O diretor Akin tem um interesse especial pela cultura de Istambul. Filho de imigrantes turcos nascido na Alemanha, ele já explorou o tema em 'Contra a Parede', que levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2004. Se no filme premiado ele falava da complicada relação das pessoas de sua geração com a cultura de seus pais imigrantes, aqui ele busca a Turquia in loco, mostrando que sua capital é um caldeirão de diversas nacionalidades, sons e cores.

A ponte do título é a própria cidade, que abriga músicos dos mais diversos estilos, desde hip hop e rap, passando por rock experimental, jazz e chegando ao dance music e baladas românticas -- todos, claro, com um toque dos sons locais.

Dessa forma, acabam coexistindo originalidade e cópias da música ocidental, como é o caso de um rapper que tenta convencer de que não imita os jovens afro-americanos.

Na visão de Akin, a cultura turca é fragmentada. Enquanto num lugar se lê uma pichação num muro 'hip hop não, muçulmanos sim', em outro canto da cidade um roqueiro alternativo reúne um grupo de jovens para ver o pôr-do-sol e cantar -- algo bem parecido com o que faziam os hippies nos anos 1960. Quem conduz essa jornada pelas ruas e sons de Istambul é o músico alemão Alexander Hacke, membro da banda de vanguarda 'Einstürzende Neubauten'. Ele próprio um grande personagem por seu entusiasmo e curiosidade pela cultura local, que acaba se hospedando no mesmo hotel que o protagonista de 'Contra a Parede'.

Andando pelas ruas, Hacke encontra bandas e músicos que o encantam. Como é o caso do roqueiro veterano Erkin Koray, que nos anos de 1960 foi um dos primeiros a tocar música turca com instrumentos eletrônicos, ao mesmo tempo que tocava Beatles com os tradicionais instrumentos turcos. Outro destaque é Sezen Aksu, conhecida como 'A Voz de Istambul'. Aqui ela canta com acompanhamentos mínimos, destacando, assim, sua famosa entonação.

É pelos olhos desse músico alemão que o público descobre esse mundo, uma mistura do Oriente com o Ocidente, e ainda assim capaz de constituir um universo único. Amparado nele e em outros achados, Akin mostra no documentário a mesma energia que sustenta sua ficção.