Ler ou assistir sobre genial encontro de Harper Lee e Truman Capote

Agência JB

RIO - 'O sol é para todos' marcou tantos pelo mundo que não chega a ser uma prova de intelectualidade tê-lo lido. O livro é cheio de referências autobiograficas e seus personagens são reais e puros como não se fazem mais. É um retrato da América que não existe mais. Uma América que ainda não conhecia os direitos civis para negros, que não destruia o arquétipo do guerreio em batalhas longas e desnecessárias, uma América que tinha os Finch para alegrá-los.

Lee Harper a autora deste best-seller não escreveu nenhum outro livro depois do estrondoso sucesso de 'To kill a moking bird'. Existem boatos de que seu editor ainda insistiu e tentou ajudar a genial ex-aluna de direito e fiel escudeira de Truman Capote a encontrar um tema e segui-lo até ter uma nova trama. Harper, porém ficou com seu Pulitzer, ganho um ano após a publicação do livro e seu Oscar de melhor roteiro adaptado, numa solitária vida de reclusão.

Nascida no discriminatório Sul. Lee foi muito parecida com a Scout Finch de seu livro. Ela também gostava de usar calças, subir em árvores e pouco ligar para as regras de etiqueta impostas para as meninas bem nascidas de sua época. Lee também como a sua alter-ego, foi marcada pela injustiça de uma cidade segregada. Uma injustiça não dirigida a ela, uma injustiça assistida por toda uma população que preferiu ajustar um crime inventado a cor dos supostos mal feitores.

Tom Robinson é o nome do homem negro acusado de estuprar uma jovem branca em sua casa no interior do Alabama. Na cidade de seu nascimento, Monroville, Alabama um julgamento marcou a 'Tomboy' Lee para toda a vida. Nove rapazes negros foram acusados e condenados por estuprar duas moças brancas. Os detalhes marcantes, no entanto, não se referem a natureza do 'ocorrido'. Um médico atestou em juízo não ter encontrado nenhuma prova física de que as meninas em questão haviam sido violentadas. Os advogados indicados para defender os rapazes 'de cor' foram escolhidos no dia em que o julgamento iniciou. Estes inclusive quase foram linchados pela população quando aceitaram o caso. Mesmo sem provas os rapazes foram condenados. Um deles, o único menor salvou-se da pena de morte, os outros oito foram condenados a prisão perpétua ou cadeira elétrica( na época este tipo de crime era punido com a morte no Alabama).

O cativante e sensível personagem de Dill teria sido inspirado no vizinho e amigo de infância de Lee, o também premiado autor Truman Capote. Em diversos momentos Truman falou a repórteres e biografos que vários personagens de 'O sol é para todos' existiram na realidade em sua cidade.

Ler é a forma mais simples e coerrente de se encontrar. Na ficção além de fugir das aguras do cotidiano, encontramos amigos, pais, e dignitários de nosso amor que não mais se encontram entre nós. A figura paterna no livro de Harper, revela tanto sobre a autora quanto ela se permitiu mostrar. Atticus Finch é o digno e justo advogado e legislador de Maycomb, e graças a sua influência e descompromissada sabedoria sua filha tem a oportunidade de observar o pior lado que um ser humano pode ter sem se quebrantar por isso.

Imediatamente após o lançamento de 'O sol nasce para todos' Harper aconpanhou Capote na pesquisa que depois se tornaria o também best-seller, 'In cold blood'. O assassinato brutal de um fazendeiro e de sua família no Kansas mobilizou todos os esforços dos dois amigos. Capote, inclusive se manteve uma forte ligação emocional com um dos assassinos, pagando por advogados e fazendo diversos esforços para impedir a execução da dupla de criminosos confessos. O autor nunca se recuperou depois deste encontro amoroso não consumado.

Conhecida por sua vida reclusa e por suas pouquíssimas aparições públicas, Lee foi homenageada por diversas instituições educacionais de renome, entre elas a prestigiosa Universidade Notre Dame, que distribuiu cópias do único romance de Lee para seus alunos para que ao se levantarem para ovacioná-la eles pudessem levantar seus exemplares para completar a homenagem.

Estréia hoje nos cinemas uma nova versão sobre o genial e polêmico escritor Truman Capote. Lançado nos Estados Unidos simultâneamente com o badalado filme 'Capote', o filme passou desapercebido pelo grande público. A crítica teve reações mistas, aparições geniais de atrizes batidas como Gwyneth Paltrow e Sandra Bullock( que vive a centrada amiga de Capote, Harper Lee) e performances merecedoras de atenção. Vale a pena ler o livro, ver os filmes e viver a idéia do mistério de gênios da literatura como não se fazem mais.