Itália assiste a polêmico documentário sobre pedofilia e Igreja

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ROMA - Um polêmico documentário da BBC sobre o abuso sexual de crianças por padres católicos foi exibido na televisão italiana na quinta-feira, enquanto políticos conservadores pediam um boicote da emissora estatal italiana por exibir o filme

O documentário 'Crimes Sexuais e o Vaticano' vem há algumas semanas opondo políticos de direita contrários a sua exibição e aqueles que consideram que censurar o documentário seria uma violação da liberdade de expressão.

Depois de muita discussão, o presidente da televisão estatal RAI decidiu que o documentário poderia ser transmitido como parte de um programa de debates intitulado 'Ano Zero', mas apenas se fosse acompanhado pela apresentação de considerações de representantes da Igreja.

Apesar da solução encontrada, a deputada Isabella Bertolini, do partido conservador Força Itália, convocou a população a boicotar a RAI por dez minutos para protestar contra a decisão de transmitir 'um documentário repleto de mentiras'.

Outros grupos também protestaram contra a decisão de transmitir o documentário, alegando que a Igreja Católica está sendo submetida a um julgamento na mídia. O documentário já foi visto por milhões de italianos na Internet.

O programa marcou a primeira vez em que a questão do abuso sexual de crianças foi discutida de maneira tão explícita na televisão italiana.

O bispo Rino Fisichella, que expôs o ponto de vista do Vaticano, e o padre italiano Fortunato Di Noto, que lidera uma campanha contra a pedofilia, contestaram partes do documentário e algumas afirmações feitas por outros convidados, que acusaram a Igreja de proteger os padres pedófilos.

Durante o programa, o bispo Fisichella, que é reitor da Pontifícia Universidade Laterana de Roma, e outros disseram que é injusto focalizar a pedofilia entre sacerdotes, sendo que ela está presente em muitos outros setores da sociedade.

O apresentador do programa, o jornalista de esquerda Michele Santoro, disse que, de cerca de mil casos reportados de pedofilia cometida por padres, a Igreja italiana investigou apenas dez.

O programa também incluiu a presença de jovens que afirmaram ter sofrido abusos sexuais quando eram crianças e participavam de um grupo paroquial em Florença e que disseram que as autoridades da igreja local não abriram uma investigação para apurar suas queixas.

O documentário da BBC examina o que descreve como documentos secretos do Vaticano que determinam procedimentos para enfrentar casos gerais de abuso do confessionário por padres, com o objetivo de silenciar suas vítimas.

Escrito em 1962, o documento original foi atualizado em 2001 para tratar mais especificamente da pedofilia, à medida que a Igreja em todo o mundo foi sendo envolvida numa série de escândalos de abuso sexual.