'O Mundo em Duas Voltas' retrata expedição dos Schürmann

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SÃO PAULO - Há alguns anos, o economista Vilfredo Schürmann e sua mulher, a professora de inglês Heloísa, realizaram aquilo que é um sonho remoto para muita gente -- largaram a vida normal e transformaram-se em velejadores em tempo integral. O documentário 'O Mundo em Duas Voltas', que estréia no país na sexta-feira, acompanha a viagem realizada pelo casal entre 1997 e 2000. O longa foi dirigido por um de seus filhos, David Schürmann, que viveu no mar entre os 10 e os 15 anos.

Nessas duas voltas pelo planeta, repete-se o roteiro do português Fernão de Magalhães (1480-1521), primeiro navegador a realizar uma circunavegação completa da Terra, no século 16. Uma das melhores sacadas do filme -- contribuição do roteirista Luiz Bolognesi -- é justamente traçar este paralelo entre a viagem idílica dos Schürmann por paisagens belíssimas, nas Canárias, Brunei, Filipinas, Bali e outros lugares, e as turbulências que marcaram a expedição de Magalhães, à qual nem ele mesmo sobreviveu.

Quando aquela viagem iniciada em 1519 terminou, três anos depois, não mais do que 18 marinheiros haviam sobrevivido. Na saída, a tripulação chegava a 300 homens. A viagem de Magalhães vai sendo acompanhada a partir de relatos extraídos do diário do tripulante italiano Rigaleta, ilustradas com as animações do francês Laurent Cardon -- que morou no Brasil entre 1995 e 2006. Em que pesem a beleza das imagens e a indiscutível simpatia dos Schürmann -- nesta viagem, acompanhados pela filha adotiva Kat, de seis anos, que morreu pouco depois --, o documentário revela-se, afinal, um parente próximo das atrações de canais a cabo, do tipo Discovery Channel.

Nada que deponha contra a qualidade da produção, que apresenta valor inegável. Apenas observa-se um pouco de falta de ambição no sentido de realmente revelar a fundo as paisagens e realidades humanas contadas ao longo destes alegados mais de 60 mil quilômetros percorridos. Em 'O Mundo em Duas Voltas', todos os conflitos -- mesmo os familiares -- são relativizados, todas as contradições da realidade, evitadas. O retrato resulta um tanto adocicado, embora bonito.