Texto inédito de Rossellini previa conflito entre ocidente e Islã

Agência ANSA

ROMA - A perspicácia do pensamento e da obra de Roberto Rossellini encontra uma nova comprovação com a publicação de "Islam", texto inédito de um projeto televisivo que o diretor escreveu em 1976 e acabou por não ser filmado.

O manuscrito, dividido em setenta pastas, foi reencontrado por Renzo Rossellini, filho e colaborador muito próximo de Roberto. A ele também se deve a organização do curto livro publicado na Itália pela editora Donzelli (163 páginas, 13,50 euros) que contém a filmografia completa do diretor, com fichas exaustivas sobre cada obra.

"Islam" se insere no projeto de filmes televisivos histórico-didáticos sobre a história da humanidade, uma espécie de enciclopédia imagética que produziu também obras-primas singulares, como "La Presa del Potere di Luigi XIV" e "Il Messia".

Para Rossellini (1906-1977), que já desde a segunda metade dos anos 1960 tinha rompido com a indústria cinematográfica, a divulgação televisiva representava o futuro do cinema e - de um ponto de vista pessoal - um novo campo a ser explorado.

No texto inédito, surpreende o modo original de enfrentar a questão do islã, com reflexões que hoje parecem ter extrema atualidade. Dizem as primeiríssimas linhas: "Agora que o mundo está ainda mais dilacerado por novas incompreensões e por acontecimentos inusitados, torna-se urgente fazer alguma coisa. Uma nova fratura muito profunda foi criada entre o mundo ocidental, orgulhoso de seu suposto pragmatismo, e o mundo muçulmano, que, finalmente despertado, tem a coragem de se recobrar".

Muitos anos antes do fatídico 11 de setembro de 2001, Rossellini parece intuir o perigo de um choque de civilizações e postula a necessidade de conhecer as riquíssimas raízes da cultura árabe e da relação profunda que essas raízes têm com o Ocidente.

Um raciocínio cristalino, que revela não apenas a erudição e a postura de pesquisador, mas também a incrível capacidade de intuição do mestre. "Qualquer coisa poderá acontecer", diz a obra. "Mas para nos odiarmos bem ou nos destruirmos bem, para nos suportarmos bem ou para colaborarmos bem, deveremos em todo caso conhecer-nos bem."

O texto foi escrito à mão, como todos os outros do mesmo gênero, em blocos pautados amarelos, que Rossellini usava sempre para o seu trabalho.

Comumente, depois de ter escrito ele fotocopiava as páginas e as dava ao filho, para que ele as lesse e fizesse as suas observações. Mas, quando terminou de escrever "Islam", segundo conta Renzo, ele não fez cópias e pediu a ele que lesse rápido, diante de si, as páginas recém-preenchidas.

- Imediatamente comentei - conta Renzo: "Mas como, os países islâmicos são riquíssimos, têm petróleo e podem colocar de joelhos a economia do planeta!". Rossellini então respondeu num ímpeto ao filho: "Mas esse é o problema: para apoderar-se dessas riquezas criaremos pretextos, usaremos as armas do racismo, como foi feito contra os judeus, e pior, poderemos criar um novo holocausto, e desta vez as vítimas serão o islã e os muçulmanos".