Crítica - Amanda: Tudo vai ficar bem

**** - Muito Bom

O cineasta Mikael Hers não tem ainda um currículo extenso, mas a investigação sobre o humanismo que ele propõe em 'Amanda' faz de sua voz um libelo dissonante no mercado hoje. Assolado por uma cena cinematográfica desolada por uma espécie de recessão emocional, advinda das crises simultâneas no qual o globo enfrenta hoje, a estreia desse longa representa uma espécie de chá de camomila que o cinema europeu precisa beber atualmente, olhando mais pro que nos faz empáticos e calorosos, e deixando de lado a misantropia generalizada.

O cinema que Hers representa com sua produção encontra eco nos olhares de Mia Hansen-Løve para o próximo, unindo os seres através da fina conexão que a humanidade criou. O personagem de Vincent Lacoste não tem muitas opções ao ser arremessado no olho do furacão; há apenas o que precisa ser feito. Ele faz e a partir desse novo olhar na direção da sobrinha Amanda, o rapaz constroi para ambos uma vida comum. Amanda por fim acaba por ser tornar um símbolo do ato primordial de se reerguer, procurando saídas na mais profunda dor para plantar o bem.

Macaque in the trees
Amanda (Foto: Divulgação)

O filme eleva uma tradição do naturalismo narrativo francês a um patamar de inclusão emocional, como se promovesse além dos seus diálogos e da sua simplicidade, diversas subversões dramáticas, reinventando a expectativa do público a cada nova curva dos sentidos. É como se o cineasta usasse o mais batido conceito de 'plot twist' para surpreender no mínimo esforço, com o máximo em efeito. De base sólida e muito bem estruturada em seu roteiro, o filme segue o fluxo dos acontecimentos diários até percebermos que o tempo em cena corre de modo muito particular, com uma velocidade muito única, que tanto podem significar minutos quanto dias, de maneira fascinante.

Na frente dos nossos olhos, Hers ainda ousa metaforizar o processo de reconstrução dos seres individuais em reflexo das sociedades como um todo. Utilizando material sonoro dos mais sofisticados na temporada, 'Amanda' mostra de forma hábil a maneira que uma parcela infelizmente pequena do mundo hoje reage diante da chegada sorrateira do horror completo. Abrir-se para o próximo é a saída, e esse jovem cineasta filma Paris com um misto de nostalgia e reverência, e com montagem sublime faz surgir na frente dos nossos olhos um novo conceito de amadurecimento no cinema, tanto de personagens quanto de narrativa, aquele possível - e, com mestria, conduz sutis conceitos de urgência, pânico, placidez, estupefação, carência e tantos outros, sempre em surpreendentes gradações coloquiais.