Pedro Mariano promete lotar o Imperator em um par de shows de 'autoanálise' neste fim de semana

Tem um quê de autonálise - palavra que, na língua das artes, traduz-se como "revisão crítica de si mesmo" - no par de shows que Pedro Mariano faz este fim de semana no Rio, para um Imperator lotado.

Essa é a tônica que guia o trabalho do cantor e produtor (indicado quatro vezes ao Grammy latino) a partir de uma recente imersão no universo orquestral.

Macaque in the trees
Pedro Mariano (Foto: divulgação)

Decantadas nos tímpanos além dos arranjos, avaliadas como dramaturgia dos verbos “amar” e “viver”, letras como as de “Labirinto” (Jair Oliveira), “Alguém Dirá” (Pedro Altério/Pedro Viáfora) e “Enfim” (Daniel Carlomagno) carregam tintas quase existencialistas, menos reféns de um lirismo imediatista e mais voltadas para balanços de vida. É por essa trilha que a plateia da casa de espetáculos no Méier vai trafegar.

“A canção de amor que mexia comigo há 20 anos evocava a conquista, a paixão... mas a paixão vista quase de maneira adolescente, visceral. Hoje, o que mais mexe comigo nas canções de amor é o respeito ao que se cativou, o querer bem, o estar feliz com o que se tem. Hoje eu valorizo mais o porto seguro do que as conquistas”, disse o músico ao JB ao lançar seu mais recente CD, com seu nome no título: “Pedro Mariano e Orquestra – DNA” (lançado pelos selos LAB 344 e NAU, também no formato DVD).

O disco espelha um apego carinhoso ao patrimônio afetivo de quem dedicou os últimos 24 anos a uma carreira de descobertas, de garimpos musicais e sensoriais - o que poderá ser ouvido da plateia do Imperator.

Seu trabalho anterior, de 2014, já trilhava uma linha de orquestra. “Nas turnês pelo Brasil, essa experiência orquestral, feita na unha, sem metrônomo, com profundidade de campo, muda tudo, exigindo um maior grau de concentração dado o respeito que é necessário ter com todo o grupo de pessoas ao seu lado, no palco. Esse é um trabalho que espelha não só o meu amor pela MPB, como instituição, mas também marca o meu olhar para a música como sendo uma filosofia de vida”, disse Mariano ao B. “Eu me sinto um cantor em constante transformação, porém com mais certezas do que dúvidas”.

No terreno das reinvenções, seu novo disco deixou espaço nobre para regravações de medalhões da MPB, como Ivan Lins e Abel Ferreira, representados numa revisão de “Acaso”, e Tavito e Zé Rodrix, que entram na bolacha com “Casa no Campo”. Sua presença dá ao CD um tempero de amor materno, pois a canção foi um dos hits de sua mãe, Elis Regina (1945-1982). Nos shows, ao atacar esta faixa, Mariano improvisa uma espécie de “duo digital” quase metafísico com a mãe, ao projetar imagem dela em ação, em um telão, num momento de muita emoção. De todos os resgates sonoros propostos pelo músico, o maior acerto, segundo o termômetro da crítica (e do aplauso do público), é uma (inspirada) visita a “Êxtase”, de Guilherme Arantes.

“É difícil voltar a uma dessas canções que estão no consciente coletivo, que todo mundo sabe", disse o músico. "A questão é como manter a identidade, preservando o respeito à obra original".