Cineastas refletem sobre adaptações em biografias

Divulgação
Credit...Divulgação

São Paulo - Quando o Freddie Mercury do filme subiu ao palco de Wembley sabendo que tinha Aids e que talvez fosse o último concerto de sua vida, soou um sinal. Onde estava a vida real? Há limites para a liberdade poética dos cineastas? Mais do que avisar de que o filme é "baseado em fatos reais", não seria o momento de avisá-los de que se trata de ficção? Freddie Mercury, o real, só teria diagnóstico de HIV dois anos depois, mas a questão se fez maior no filme. É esse fato que rende o momento mais emocionante, em que o filme se apoia para seu grande desfecho. Uma coisa é cantar no Live Aid. Outra é cantar sabendo que a morte está próxima.

Com a produção de cinebiografias nacionais em alta, cabe a discussão. É preciso entender, como dizem os cineastas, que nenhuma história consegue ser preservada em todas as suas sequências temporais quando se torna filme. A questão fica mais séria, no entanto, quando o fato é distorcido e a história, modificada.

Erasmo Carlos ganhou seu filme há duas semanas. "Minha fama de mau" tem direção de Lui Farias e Chay Suede no papel dele. "Quando vi a discussão sobre o filme do Queen, fiquei assustado e pensei: 'Caramba, será que vai ser assim com o meu filme?'", diz Lui. "A responsabilidade é a de respeitar o personagem em seu conceito, mas não podemos ter a obrigação de passarmos a história tim-tim por tim-tim." Assim, Tim Maia aparece mostrando a Erasmo "Azul da cor do mar" muito antes de ela ser lançada, ou de Roberto mostrar a ele a canção "Amigo" cerca de dez anos antes de que ela fosse criada, em 1977. Para o filme, funcionou perfeitamente. Sobre a história, o próprio Roberto Carlos percebeu. "Você sabe que a música 'Amigo' não foi composta ali não, né?", lembra Lui, ao contar de quando mostrou o filme a Roberto. "Eu sei, mas não poderia não ter essa música", diz o diretor.

"A música 'Eu sou terrível' não pertence ao repertório do Erasmo, mas ao de Roberto. Eu a uso como sendo do Erasmo, subverti a coisa", acrescenta Lui. Os violões Taylor que aparecem nas mãos dos músicos também são liberdades artísticas. Nos anos 60, Erasmo empunharia, no máximo, um Giannini velho.

Mauro Lima tem três cinebiografias nas costas, "Meu nome não é Johnny" (2008), "Tim Maia" (2014) e "João, o maestro", sobre o pianista João Carlos Martins (2016). A de Tim Maia trouxe muitas opções. "Optei por músicos sem nome. Não dava para colocar todos os parceiros do Tim Maia. Adoro o Hyldon, mas eu não poderia colocá-lo e tirá-lo rapidamente. Gostaria muito também de ter 'Primavera', do Cassiano. Mas ele quis cobrar uma fortuna e acabei não usando."

Walter Carvalho fez o filme sobre Cazuza, "O tempo não para", de 2004. Uma falta sentida por muitos fãs foi a ausência de Ney Matogrosso na história. Além de ter namorado Cazuza, foi Ney quem lançou o Barão Vermelho depois de gravar uma música deles pela primeira vez, "Pro dia nascer feliz". Mesmo depois de colher um longo depoimento de Ney, o personagem acabou ficando de fora. "Nós chegamos a juntar dois ou três personagens em um só, de tantos que eram", lembra Walter. "O namorado que aparece no filme é, na verdade, a junção de vários. Ney é uma figura tão extraordinária que, quando aparecesse, íamos começar um outro filme. Um filme sobre os dois". (Estadão Conteúdo)