E o Oscar foi para...a conciliação

Controversa, a escolha de 'Green book - O guia' para receber a estatueta de melhor filme da Academia de Hollywood é um gesto em prol da tolerância racial em tempos de Trump

Reuters/MIKE BLAKE
Credit...Reuters/MIKE BLAKE

Cenas comoventes como a ovação a Spike Lee - ao ser (enfim) coroado por Hollywood após 40 anos de carreira - ou o chamego trocado entre Lady Gaga e seu diretor, Bradley Cooper - em meio aos acordes da balada romântica "Shallow" - tornaram a cerimônia do Oscar 2019, no domingo, uma festa do afeto, palavra que encontrou seu ápice na entrega da estatueta mais cobiçada, a de melhor filme, a "Green book - O guia". Ficaram com ele também os troféus de roteiro original e ator coadjuvante, dado a Mahershala Ali.

Há 17 anos, Peter Farrelly, o realizador dessa comédia de tintas dramáticas - sobre a construção da amizade entre um pianista negro e seu chofer, um ítalo-americano brucutu e preconceituoso - veio ao Brasil para lançar "O amor é cego" (2002), uma chanchada típica do humor grosseirão que deu fama ao cineasta ao largo da década de 1990. À época, Farrelly sentou com o JORNAL DO BRASIL para um café, na piscina do Copacabana Palace, ao lado de seu irmão e (até então) codiretor, Bobby.

No papo, regado a simpatia e a um domínio invejável da história do cinema, Peter falava que usar o politicamente incorreto era uma arma contra a mesmice e a acomodação moral. Mas uma arma cuja pólvora secaria quando a maturidade chegasse, dando lugar a outras munições: "Um dia, talvez chegue a hora de eu usar afagos, em vez de cascas de banana", disse Farrelly, então famoso por êxitos de público como "Debi & Lóide - Dois idiotas em apuros" (1994) e "Quem vai ficar com Mary?" (1998), sem ambições de consagração com troféus.

Mas o dia de amadurecer chegou: o Oscar dado a um piloto de projetos caça-níqueis, que ambicionou evoluir celebra a conciliação nesta era de ódio. Um convite ao congraçamento racial em dias de Trump na Casa Branca, que se fez notar também com a entrega do Oscar de melhor roteiro adaptado a "Infiltrado na Klan", de Spike Lee, que pulou no colo de seu amigo e fiel colaborador Samuel L. Jackson ao ser chamado ao palco, onde gritou "É hora de se fazer a coisa certa", num trocadilho com o longa que o consagrou ("Do the right thing"), em 1989. Mas nem todo mundo entendeu o recado da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Todos os favoritos saíram bem do Dolby Theatre, a sede da cerimônia, menos "Nasce uma estrela", que disputava em oito frentes e só levou o prêmio de canção: mas Lady Gaga brilhou a tal ponto - sobretudo cantando enroscada a Bradley - que já valeu ter concorrido. No mais, foram três Oscars para "Roma" (direção, fotografia e melhor filme estrangeiro) e três para "Pantera negra" (figurino, direção de arte e trilha sonora). Fenômeno de faturamento na venda de ingressos, "Bohemian rhapsody", que custou US$ 52 milhões e já arrecadou US$ 860 milhões em quatro meses em circuito, foi quem mais conquistou prêmios, quatro: montagem, edição de som, mixagem de som e ator, dado ao americano de origem egípcia Rami Malek, pela (re)encarnação do cantor Freddie Mercury na cinebiografia da banda Queen. "Assim como Freddie, também cresci numa família de imigrantes. Que este prêmio celebre a integração", disse Malek.

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Rami Malek, que interpreta Freddie Mercury em "Bohemian rhapsody', ganhou o Oscar de melhor ator (Foto: AFP)

Depois dele, que subiu ao palco para ser laureado foi a inglesa Olivia Colman, que com seu show de excentricidades em "A favorita" derrotou o favoritismo de Gleen Close (pelo insosso "A esposa"), na maior surpresa da festa. Uma festa enxuta, saborosa que não contou com mestre de cerimônias (Kevin Hart, o ator cotado para a tarefa, acabou saindo do posto após vazarem antigos deslizes de conduta dele, mas correu bem só com os apresentadores de cada categoria. No evento, a Academia, outrora acusada de ser #sowhite (branca demais), abraçou a causa da tolerância entre raças e da ampliação de holofotes para artistas afrodescendentes em múltiplas categorias.

Basta ver que a vitória de "Homem-Aranha no Aranhaverso" como melhor longa de animação foi encampada não só por sua excelência técnica, mas por sua aposta no herói Miles Morales, um adolescente negro, de mãe latina, que tem os mesmos poderes aracnídeos do bom, velho e pálido Peter Parker. Mas foi com a consagração de "Green book - O guia", lá no fim da festa, que a carta de intenções do cinemão foi posta à mesa, como um ás. Baseado na saga real da viagem pelo Sul dos EUA (sua instância mais intolerante a diferenças) empreendida, nos anos 1960, pelo músico Donald Walbridge Shirley (1927-2013) e pelo motorista e segurança Frank Anthony "Lip" Vallelonga (1930-2013), o filme de Farrelly iniciou sua travessia em setembro, no Festival de Toronto, de onde saiu com o prêmio de júri popular. Ganhou o Globo de Ouro de melhor comédia, em 6 de janeiro. No meio do caminho, essa produção de US$ 23 milhões, estrelada por Mahershala Ali (Shirley) e Viggo Mortensen (Lip) encheu o tanque com US$ 144 milhões nas bilheterias e litros de protestos.

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Elenco e equipe de produção comemoram a vitória de 'Green book - O guia' na categoria de melhor filme do Oscar (Foto: Reprodução)

Queixas mais comuns: lugar de fala, uma das expressões mais controversas do momento. Há uma grita contra o fato de Farrelly, um americano de 62 anos da Pensilvânia, assumir para si um pleito antirracismo, tendo alterado fatos da vida de Shirley para dar mais visibilidade à figura de Lip. Há relatos de que Spike Lee deu as costas para o palco quando a atriz Julia Roberts anunciou a escolha de "Green book - O guia", como melhor filme. Era um resultado que já estava prenunciado desde 20 de janeiro, quando o longa ganhou o prêmio do Sindicato de Produtores dos Estados Unidos, o Producers Guild os America (PGA). No Oscar, quem leva as láureas sindicais abocanha as estatuetas de suas categorias: a de melhor filme, tem nessa associação o seu termômetro. E ele continua firme e forte entre os filmes mais assistidos do circuito americano na atualidade.

Foi um ano que cifras de bilheteria se fizeram notar entre os concorrentes a critérios estéticos, não apenas numa forma de valorizar a atividade, mas de resguardá-la do avanço dos canais de streaming, que tiveram em "Roma" seu representante de maior fôlego, chancelado no Festival de Veneza com o Leão de Ouro. O projeto - sobre a desagregação de uma família de classe média no México dos anos 1970, vista pelos olhos de uma empregada ameríndia - é a maior joia da grade da Netflix. Mexicano, Alfonso Cuarón recebeu seu segundo Oscar de melhor direção nesta década - o primeiro chegou em 2014, por "Gravidade". Depois dele, dois conterrâneos dele venceram na mesma categoria: Alejandro Conzález Iñárritu (em 2015, com "Birdman", e em 2016, com "O regresso") e Guillermo Del Toro (em 2018, por "A forma da água"), que, no domingo, ainda enfermo, com uma virose, foi ao Dolby Theatre premiar seu parceiro.

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Lady Gaga e Bradley Cooper interpretaram juntos "Shallow", canção da nova versão de "Nasce uma estrela" (Foto: Mike Blake)

"Em 2004, quando eu estava trabalhando nos EUA, li um dicionário de cineasta em que havia um verbete sobre Alfonso, dizendo: 'O realizador do ótimo 'Y tu mamá también' vai rodar um filme da franquia 'Harry Potter' nos EUA. Se der certo, nunca mais vamos conhecer seu lado autoral'. Agora, vejam vocês: Alfonso fez Harry Potter, ganhou Oscar por 'Gravidade', esteve no coração da indústria, mais voltou pra casa, pra fazer um filme em P&B, de três horas, sobre sua memória", disse Del Toro em um papo com o JB no Festival de Marrakech, quando "Roma" começou a se destacar. "Este é um filme do amor, com base nas pessoas que me criaram, num olhar sobre o ficou de memória sobre o meu país, quando eu era jovem", disse Cuarón em Veneza. "É sobre afeto".

Que essa onda de carinho possa aquecer corações cinéfilos, mas alertando mentes. "Não diga que eu sou pessimista, mas saiba que eu filmo o que filmo pois vivo com os olhos abertos para o que se passa à minha volta", disse Spike Lee, em Cannes, onde "Infiltrado na Klan", versão para a história real do policial negro que enganou a célula supremacista Ku Kux Klan, deu seus primeiro passos, conquistando o Grande Prêmio do Júri. "Diziam, no fim dos anos 1980, quando lancei 'Faça a coisa certa', que eu só jogo m... no ventilador. Mas os problemas raciais daquela época ainda estão aí".

Seu Oscar foi o mais celebrado pela plateia. Há três anos, ele integrou um coro de vozes contra a Academia pela ausência de atores negros em concurso. Seu protesto deu certo. Talvez não 100% da maneira como ele cria, dada sua questões com "Green Book - O guia". Mas algo mudou. E algo sugere que essa mudança é só o começo.

*Roteirista e crítico de cinema

 



Rami Malek, que interpreta Freddie Mercury em "Bohemian rhapsody', ganhou o Oscar de melhor ator
Lady Gaga e Bradley Cooper interpretaram juntos "Shallow", a vitoriosa canção de "Nasce uma estrela"
Rami Malek, em seu discurso, lembrou que é filho de imigrantes do Egito, como imigrante era a família de Freddie Mercury
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Elenco e equipe de produção comemoram a vitória de 'Green book - O guia' na categoria de melhor filme do Oscar
Lady Gaga e Bradley Cooper interpretaram juntos "Shallow", canção da nova versão de "Nasce uma estrela"