Academia da incerteza

É dia de Oscar, mas confusões de bastidor da festa mais disputada da indústria audiovisual podem roubar a cena de favoritos como ‘Roma’, ‘Pantera Negra’ e ‘Green book’

Poucas são as certezas ou apostas infalíveis em torno do Oscar 2019 - que acontece esta noite, no Dolby Theatre, tendo em “Pantera Negra”, “Green Book – O Guia” e “Roma” os mais fortes candidatos à estatueta de melhor filme - mas muitas são as especulações em volta do prêmio mais cobiçado da indústria do audiovisual. Especulações não apenas acerca de quem vai ganhar, mas sobre a festa em si, num momento em que sua audiência cai vertiginosamente. Queda essa sintonizada com uma crise na frequência das plateias em circuito.

Embora celebre o recorde na frequência de pagantes registrado em 2018, quando vendeu cerca de 1,2 bilhão de ingressos, faturando US$ 11,8 bilhões, Hollywood sabe que estes números se devem a uma ínfima parcela dos 814 filmes que lançou no ano passado. Não é todo dia que aparece um fenômeno como “Bohemian rhapsody”, a cinebiografia da banda Queen, que custou US$ 52 milhões e faturou 16 vezes mais: US$ 854 milhões. Há muitas salas de exibição vazias pelo mundo, numa retração de um público que se fideliza cada vez mais nos canais de streaming - o que justifica a badalação em torno de ‘Roma”, drama mexicano em P&B dirigido por Alfonso Cuarón para a Netflix – saindo de casa só quando a Marvel transporta algum super-herói das HQs para a telona. É o que faz dela “a” concorrente do prêmio de animação, com “Homem-Aranha em Aranhaverso”, e uma das mais ferozes candidatas ao troféu principal, sob os gritos de “Wakanda forever!” do Pantera.

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Cena de longa polonês "Guerra fria" (Foto: Divulgação)

Mas como é possível prever um vencedor para o Oscar quando não dá para imaginar como vai correr sua cerimônia na Rede ABC dos EUA (produzida por Donna Gigliotti e dirigida por Glenn Weiss), sem um anfitrião para comandar as atrações. Nestes tempos de fake news, sobram fofocas acerca da decisão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood de excluir a figura do apresentador – antes celebrizada graças ao trabalho de ases do riso como Billy Crystal, Ellen Degeneres, Jack Lemmon -, contando apenas com um rodízio de estrelas pra anunciar cada uma das 23 categorias da premiação. A apresentação ficaria com Kevin Hart, mas este foi limado depois que comentários politicamente incorretos deles vazaram na web. Desde quarta, corre pela rede uma tese de que Whoppi Goldberg, que ganhou o Oscar de melhor coadjuvante por “Ghost”, em 1991 e apresentou a festa quatro vezes (1994, 1996, 1999 e 2002), entraria, de surpresa, no comando desta edição. É a 91ª desde 1929, o ano inaugural do prêmio, entregue a “Asas”, de William A. Wellman e Harry d'Arrast. A ABC já negou a ida de Whoopi, mas os boatos em torno dela só crescem.

Pior que isso foi o turbilhão de decisões malfadadas sobre o que seria apresentado na festa. A Academia propôs não televisionar a entrega de certas categorias, como fotografia e edição, só que os cineastas chiaram e ela voltou atrás. Mesma confusão se deu com a ideia de não abrir espaço para números musicais de todos os indicados a melhor canção. O cinema chiou. Vai ter música de novo, por vários cantos da festa. Lady Gaga, favorita ao prêmio de melhor canção com “Shallow”, não perderá a chance de assaltar os holofotes num duo com Bradley Cooper, seu diretor em “Nasce uma estrela”, drama de arrecadação astronômica (custou US$ 36 milhões e faturou US$ 423 milhões) que acabou subestimado na corrida pelas estatuetas.

Com Whoopi ou sem Whoopi, com idas e vindas, nada muda para os brasileiros, que ficaram fora do páreo. Para quem quiser acompanhar a festa pela TV, do Brasil, a TNT transmite a cerimônia a partir de 20h30, quando começa a chegada das celebridades ao tapete vermelho. Já a TV Globo entra em sintonia com a Academia a partir de 23h50, após o “Big Brother”. Pra quem estiver no Rio e quiser curtir a transmissão coletivamente, a locadora Cavídeo, situada na Cobal do Humaitá, vai fazer um bolão com quiz cinéfilo e sorteio, a partir das 20h, com um telão montado no Espírito do Chopp. Ali, a torcida oscila. “Oscar tem essa de gosto pessoal, mas a minha torcida é por ‘Infiltrado na Klan’, porque é o Spike Lee é um gênio que já deveria ter sido premiado há anos”, diz o produtor e diretor Cavi Borges, que organiza o bolão.

 

Foco sobre o debate racial 

Laureado com o Grande Prêmio do Júri em Cannes, coroado com US$ 90 milhões de bilheteria, “Infiltrado na Klan” é o maior sucesso de Lee nesta década e um de seus filmes mais elogiados, embasando uma tônica que marca o Oscar 2019: aumento de espaço para representações da população negra. Antes ele era visto como o favorito para a estatueta de direção, mas perdeu fôlego para Cuarón. O termômetro são as votações sindicais hollywoodianas, pois quem ganha os troféus das associações profissionais de cada classe do audiovisual é quem costuma ganhar o troféu da Academia: e, este ano, o Sindicato de Diretores (Directors Guild of America) coroou o mexicano. Porém, o debate racial que Lee abriu acerca da realidade americana sob a gestão de Donald Trump incendiou múltiplos pleitos por maior representatividade afrodescendente na premiação de Hollywood. Daí o boom de “Pantera Negra”, dirigido por Ryan Coogler (um fã de Spike), e centrado numa África de superação das contradições sociais pela tecnologia e pelo respeito às tradições. “A gente pode ir longe, bem longe, pois todo mundo como nós, negros, que crescemos com poucos referenciais de matriz africana no cinemão, sobretudo o de heróis, temos agora uma opção, uma nova mitologia”, disse Chadwick Boseman, que vive T’Challa, o alter ego do Pantera, quando o longa estreou, faturando US$ 1,3 bilhão, a maior receita entre as oito produções indicadas ao Oscar de melhor filme.

Ao ganhar o prêmio principal da festa do Screen Actors Guild (SAG), o sindicato dos atores, maior massa votante da Academia, “Pantera Negra” disparou como favorito, driblando a tese de que, numa política de boa vizinhança, Hollywood coroaria “Roma”, em reverência à Netflix. O único sindicato de tanto peso quanto o SAG, o Producers Guild Awards (PGA), canteiro dos produtores, preferiu um outro painel racial: “Green Book – O Guia”, de Peter Farrelly. Famoso por chanchadas como “Quem vai ficar com Mary?” (1998) e “Debi & Lóide” (1994), codirigidas por seu irmão, Bobby, Farrelly surpreendeu a ala autoral e o povão ao rodar uma comédia dramática, baseada em fatos reais, sobre a amizade entre um motorista ítalo-americano (Viggo Mortensen) e um pianista negro (Mahershalla Ali, o mais cotado ao prêmio de coadjuvante). É um sinal de evolução do cineasta na direção, um marco na celebração das diferenças, mas o fato de seu realizador ser branco gerou uma grita de muitas alas que falam em controvérsia racial e usam a expressão “tolerância de butique” para o longa. Mas, polêmicas à parte, a noite pode ser de Farrelly.

Da mesma forma, neste bonde de debates sobre dramas ligados à violência contra os negros, Regina King ganhou um (merecido e, de certa forma, tardio) reconhecimento ao disparar com a potencial ganhadora do prêmio de melhor coadjuvante por “Se a rua Beale falasse”: ela é a mãe de uma jovem grávida cujo namorado acaba de ser preso, num gesto racista. Inclua ainda nesse bloco “Homem-Aranha no Aranhaverso”, aventura animada que adota o adolescente Miles Morales, negro e de origem hispano-americana, como protagonista. Fora o simbolismo, “Aranhaverso” e “Pantera Negra” sinalizam a hegemonia da Marvel sobre o cinemão atual: as maiores cifras do mercado exibidor são baseados nos quadrinhos de Stan Lee (1922-2018) e os talentos dos gibi enfileirados por ele na editora que virou sinônimo de fortuna certa.

Há quem reclame que os quadrinhos infantilizaram o cinema e que o Oscar dá um ar mais adulto ao audiovisual quando vem com filmes como “Vice”, história real de Dick Cheney, o político que convenceu Geroge W. Bush a declarar guerra ao Iraque pós-11 de Setembro de 2001. O galês Christian Bale ganhou o Globo de Ouro de melhor ator pelo papel de Cheney e, hoje, pode ser o maior rival de Rami Malek, encarado como favorito por seu desempenho como Freddie Mercury em “Bohemian Rhapsody”. “Aula de cinema, ‘Vice’ é uma metralhadora giratória atirando para todos os lados do Governo Trump, ultra conservador, homofóbico, xenófobo e racista. Através da sátira, o filme de Adam McKay expõe a sociedade americana de uma forma constrangedora e faz o espectador refletir sobre os caminhos que a humanidade está seguindo”, diz o cineasta Hsu Chien, que organiza o bolão da Cavídeo com Cavi.

Palpites pra cá palpites pra lá, este é um Oscar que demonstra fragilidades da Meca do cinema diante das transformações de comportamento do mundo e das práticas de consumo. Que os melhores vençam...