'Rugas' leva as incertezas sobre o envelhecimento ao palco do Teatro Glaucio Gill, sábado e domingo

Logo após completar seis décadas, o Teatro Glaucio Gill apresenta, até o fim desta semana, uma peça que versa sobre a faixa etária da qual começa a fazer parte. Curiosamente gestada a partir de um atualíssimo canal no YouTube, "Rugas" trata de questões ligadas ao envelhecimento. A montagem fica em cartaz até domingo, no espaço que foi inaugurado em 1958, inicialmente como Teatro da Praça, na Cardeal Arcoverde, em Copacabana.

Com direção do veterano Amir Haddad, 81 anos, cofundador do Teatro Oficina, e texto do jovem ator e autor Herton Gustavo Gratto, 36, "Rugas" se desenvolve a partir da vida de uma gerontóloga, vivida por Claudiana Cotrim, que tenta descobrir como fazer o tempo parar. Com esse objetivo, ela vai estudar no exterior, onde fica quase sem contato com a mãe, interpretada por Vanja Freitas.

A cientista leva sua distante rotina de estudos até receber, durante uma palestra, o telefonema da cuidadora de sua mãe, dizendo que ela está muito doente e que precisa vê-la.

"A partir da relação delas, a gente propõe ao espectador que pense sobre algumas questões: 'O que você vai ser quando envelhecer?' ou 'Quando você se sentiu velho pela primeira vez? O público mais velho se identifica profundamente e os jovens têm a oportunidade de mudar seu pensamento a respeito do próprio futuro", afirma Claudiana, que, ainda vai completar 49 anos), ressalta a coincidência de montar o espetáculo em Copacabana, bairro com maior número absoluto de idosos, de acordo com o IBGE - eram mais de 43 mil moradores com mais de 60 anos em 2010, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística realizou o Censo mais recente.

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Muito doente, a mãe (Vanja Freitas) apela à filha (Claudiana Cotrim), gerontóloga que tenta parar o tempo (Foto: Thyago Andrade/Divulgação)

Em outra curiosidade comum, o próprio Teatro Glaucio Gill foi rebatizado, em 1965, em homenagem ao ator e dramaturgo então recém-falecido de forma precoce, vítima de um ataque cardíaco, aos 33 anos - metade da idade à qual se encaminha uma das duas atrizes idealizadores da peça em cartaz.

Prestes a completar 66 anos, Vanja Freitas começou a pesquisar sobre o tema do envelhecimento após a morte da mãe. "Minha mãe teve Alzheimer durante mais de dez anos e foi um momento muito forte. Começamos a descobrir a doença por volta dos 80 anos dela, que morreu aos 92", conta. "Todo o texto da peça foi construído a partir de entrevistas, durante três anos, sobre o envelhecimento. Senti a necessidade de me preparar para a chegada da idade e de pesquisar como as pessoas se preparavam. E o fato é que ninguém está preparado para a velhice", afirma a atriz.

Faixa ampliada

Inicialmente, a pesquisa seria feita somente com pessoas acima dos 65 anos, mas a ideia atraiu mais gente que queria falar sobre envelhecer. "Falamos com quase 300 pessoas", contabiliza Claudiana Cotrim. "No início, chamamos os amigos mais velhos. Depois, pessoas mais novas, como os filhos deles, pediram para serem entrevistadas, até por já sentirem algum envelhecimento, mesmo que inicial. Falamos com gente de 25 anos que já usa botox", exemplifica.

Dado o pontapé da pesquisa, veio o canal "Rugas, para que te quero?", que as atrizes abriram no YouTube, com esquetes teorizando (e ironizando) sobre o avanço da idade, além de levarem ao público questões levantadas nas entrevistas que haviam realizado.

Para Vanja, foi "chocante quando passaram a me chamar de 'senhora' em todo lugar ou dar o lugar em ônibus e metrô". Pessoalmente, e com humor, ela rejeita eufemismos politicamente corretos, mas reflete. "Melhor idade, coisa nenhuma! Mas é o momento de pensar em que você vai fazer quando envelhecer", pondera.

"Eu sou velha, gosto de me reconhecer velha. Gosto muito dessa palavra, particularmente. Sou baiana e, na Bahia, tem o costume de chamar 'ô véio'. Tenho muita intimidade", brinca.

Claudiana acrescenta que o canal "ajuda a desmistificar o envelhecimento. Ajuda a preparar, porque a gente constatou que ninguém pensa em como vai ser quando envelhecer".

A escolha de um diretor veterano fez parte desse processo, no momento em que o próprio passa por um processo de envelhecimento na faixa etária média com consequências fortes para questões como a Previdência. "Hoje, as pessoas vivem mais. Falamos com pessoas que já poderiam se aposentar e continuam trabalhando, com outras que se aposentaram e continuam trabalhando... Foi quando a gente foi procurar o Amir, de 81, para dirigir a peça", conta a atriz que encarna a gerontóloga. "Ao mesmo, tempo, o texto ficou com a visão de alguém muito mais novo. O Herton Gustavo conseguiu reunir tudo de mais importante que havíamos levantado e a última palavra do Amir foi muito importante", resume.

Figurino e cenário de Lorena Sander, sob iluminação de Marcelo Camargo, confluem para reforçar o peso da idade na montagem da dupla de atrizes.

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SERVIÇO

RUGAS TEATRO GLAUCIO GILL. Praça Cardeal Arcoverde, s/n - Copacabana. Tel.: 2332-7904. Sábado e domingo, às 18h. Ingressos: R$ 50 (inteira) / R$ 25 (meia), na bilheteria local, aberta todos os dias (16h/20h) ou online pelo site ingressorapido.com.br. Capacidade: 150 espectadores. Duração: 60 minutos.

 

 



Muito doente, a mãe (Vanja Freitas) apela à filha (Claudiana Cotrim), gerontóloga que tenta parar o tempo
Aos 81 anos, Amir Haddad dirige a peça que aborda o envelhecimento