'Synonymes: Urso de Ouro para o antônimo do pertencimento

Filme israelense sobre reconstrução de identidade ganha o troféu mais cobiçado da Berlinale 2019, surpreendendo cinéfilos, mas afirmando o prestígio do diretor Nadav Lapid

De um rigor plástico invejável, expresso em enquadramentos hipnotizantes de Paris, o drama “Synonymes”, de Nadav Lapid, deu ao cinema israelense um reconhecimento estético sonhado há tempos ao conquistar o Urso de Ouro no encerramento do 69º Festival de Berlim. É a saga, em tons autobiográficos, de um rapaz que deixa seu país para recomeçar a vida na França, sem preservar qualquer laço com suas origens israelenses, tendo como seu mais fiel companheiro um dicionário. O desempenho de Tom Mercier como Yoav, o sujeito que quer reinventar sua identidade (e custa a se livrar do passado), é impecável. Mas o que pesou mais, ao lado de sua excelência narrativa, é a aposta numa discussão sobre pertencimento.

“É uma jornada de transformação... física, mental, existencial, moral, tendo por base o percurso pelas ruas de Paris em busca de palavras com que Yoav se identifique”, disse Lapid em Berlim, onde foi contemplado, anteontem, com o prêmio da crítica, dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci). “A identidade israelense está marcada no corpo desse homem, em suas vivências”.

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Juliette Binoche, presidente do júri em Berlim, e o diretor Nadav Lapid com o maior prêmio do festival (Foto: John MacDougall/ AFP)

Polêmico em sua visão crítica sobre sua pátria, Lapid é o atual quindim da revista “Cahiers du Cinéma”, a bíblia da intelectualidade cinéfila desde os anos 1950. Aos 43 anos, com uma obra iniciada em 2003, ele ganhou prestígio ao filmar por “A professora do jardim de Infância” (2014), que ganhou um remake no ano passado nos EUA. Mas, apesar de seu cacife, ele não era visto como favorito ao Urso dourado. Esperava-se que o troféu fosse para “God exists, her name is Petrunya”, de Teona Strugar Mitevska, dado seu combate ao sexismo – “a” bandeira desta Berlinale. Mas Teona, vinda da Macedônia, nada ganhou de Juliette, tendo que se contentar com o prêmio do Júri Ecumênico e com a láurea do Sindicato dos Exibidores de Filmes de Arte. “Meu objetivo é abrir debates, ferver conversas”, disse a cineasta.

Apesar de toda a vitrine midiática conquistada na Alemanha com “Marighella”, filme de estreia de Wagner Moura na direção, exibido hors-concours, o Brasil não estava na disputa pelo Urso, mas tinha onze longas na programação, e acabou contemplado com o Prêmio Audi de Curtas por “Rise”, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca. Feito em coprodução com os EUA e o Canadá, a produção fala sobre a performance de um grupo de artistas negros em Toronto. Houve mais uma vitória nacional: o prêmio da Anistia Internacional, dado a “Espero tua (re)volta”, de Eliza Capai. É um .doc no qual um trio de estudantes dá testemunhos sobre as principais transformações políticas do país, a partir das passeatas de 2013.

Dedicada ao ator Bruno Ganz (1941-2019), mito do cinema alemão, morto na manhã deste sábado em decorrência de um câncer, a cerimônia de premiação foi também uma festa de despedida para o curador Dieter Kosslick, crítico de cinema que dirigiu a Berlinale por 18 anos. Em seu lugar, em 2020, Carlo Chatrian e Mariette Rissenbeek passam a dirigir o festival, que teve 16 longas em concurso nesta edição. Um dos mais polêmicos concorrentes, o francês “Grâce à Dieu”, de François Ozon, sobre o combate à pedofilia na Igreja Católica saiu daqui com o Prêmio Especial do Júri. É um reconhecimento ético da luta das vítimas de um padre abusador (cujo processo será julgado em março) e uma reverência merecida a um prolífico diretor que coleciona sucessos de bilheteria (“8 mulheres”, “Dentro da casa”, “O amante duplo”) e resenhas elogiosas. “Esta dramaturgia foi construída a partir dos três homens que foram abusados por um sacerdote em Lyon. Cada trecho dela tem um tom de cor e um tempo narrativo particular, condizente com o perfil de cada um dos três. Precisava ter respeito à dor deles”, disse Ozon, esbanjando alegria.

Foi inusitado ouvir o nome da alemã Angela Shanelec quando o Urso de Prata de direção foi anunciado, uma vez que seu filme, “I was home, but...” (sobre um adolescente fujão que volta para casa), teve zero repercussão. Mais preciso foi a premiação dos atores: venceram Yong Mei (atriz) e Wang Jingchun (ator, em interpretação magistral) por “So Long, my son”, da China. É um melodrama em que eles vivem um casal que levam 30 anos às voltas com o luto pela perda de um filho. “Os dois tiveram a medida da sutileza de que eu precisava para que este filme pudesse ser um painel das mazelas sociais do meu país, ao largo dos conflitos emotivos que eu narro”, disse o cineasta Wang Xiaoshuai ao JB.

Ao longo dos dez dias da maratona cinéfila berlinense, iniciada no dia 7 de fevereiro, os colegas de júri de Juliette foram o crítico Justin Chang (EUA), a estrela germânica Sandra Hüller, os diretores Trudie Styler e Sebastián Lelio (ela do Reino Unido, ele, do Chile) e pelo curador do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) Rajendra Roy. Eles concederam a láurea de melhor roteiro a um filme de máfia: “Piranhas - La paranza dei bambini”, de Claudio Giovannesi. Um dos roteiristas é o escritor Roberto Saviano, jurado de morte pela Camorra. Foi ele quem escreveu “Gomorra”, livro filmado em 2008, por Matteo Garrone e celebrizado como um dos mais importantes longas da Itália neste século. Giovannesi aproveita a literatura de Saviano pelo prisma da juventude: seu longa aborda um grupo de adolescentes mafiosos.

Ao decidir quem contemplar com o prêmio de contribuição artística, uma láurea técnica, o time de Juliette escolheu o fotógrafo Rasmus Videbaek, pelo visual estonetante de “Out stealing horses”, da Noruega – nele, um viúvo vai se refugiar da dor da perda emu ma fazenda e se depara com fantasmas de sua juventude. Ao decidir sobre o ganhador do prêmio Alfred Bauer, um troféu que coroa novas perspectivas narrativas para o cinema, os jurados bateram o martelo em prol da estética videoclipada de “System crasher”, de Nora Fingscheidt, no qual uma menininha inferniza a vida dos casais que tentam adotá-la, ao limite da brutalidade.

Laureada pelo júri popular na Berlinale de 2018 por “O processo”, a diretora brasiliense Maria Augusta Ramos integrou o júri paralelo ao de Juliette, dedicado a conceder o troféu Glashütte Original, prêmio do festival alemão dado a narrativas documentais. Em 2019, seu ganhador foi o sudanês “Talking about trees”, de Suhaib Gasmelbari. O longa fala dos esforços de quatro amigos para manter um cinema aberto no Sudão.

Agora, com o desfecho da Berlinale, é a vez de esperar o Festival de Cannes, que vai de 14 a 25 de maio, e (segundo especulações) pode ter “Rocketman”, a cinebiografia de Elton John, como atração de abertura.

*Roteirista e crítico de cinema