Dignidade chinesa em dias de luto

Faltando um dia para sua cerimônia de premiação, a Berlinale, ainda com salas abarrotadas, sofre com um desfalque em sua competição, abatida pela saída repentina de seu concorrente de maior prestígio, o chinês Zhang Yimou. Mestre da direção, respeitado por títulos como "Sorgo vermelho" (1988), "Tempo de viver" (1994) e "Herói" (2002), Yimou declinou de sua participação no evento por problemas com a finalização de "One second", seu mais recente projeto. Ficaram 16 filmes no páreo, dos quais sete são dirigidos por mulheres, com destaque para "God exists, Her name is Petrunya", de Teona Strugar Mitevska, que desponta como favorito com sua crítica ao sexismo - "o" assunto do festival. Nele, uma historiadora é alvo de ataques de múltiplas latitudesa ao se apoderar de uma cruz da Igreja Ortodoxa em que só homens poderiam pegar. Mas a China não ficou de fora do páreo pelo Urso, mesmo com a ausência de seu aclamado realizador. Um melodrama daqueles de arrancar berreiros pode dar o troféu dourado à Ásia neste sábado: "So long, my son", de Wang Xiaoshuai.

Aos 52 anos, ele já foi premiado em solo alemão por "In love we trust" (2008) e por "Bicicletas de Pequim" (2001). Seu novo longa é um doído painel das transformações sociais da China, da década de 1980 em diante, a partir da experiência afetiva de um casal devastado pelo luto, decorrente da morte de um filho, ainda criança, nas águas de um canal. Wang Jingchun pode sair premiado por sua atuação como um operário às voltas com a dor de uma perda, com a adoção de um menino e com um relacionamento inesperado. Mas ele tem dois rivais de peso: Jonas Dassler, como o psicopata do thriller "The Golden Glove", e James Norton por seu desempenho no papel do jornalista galês Gareth Jones em "Mr. Jones". Entre as mulheres, há uma torcida por Natalia de Molina e Greta Fernández, estrelas de "Elisa y Marcela", produção Netflix sobre o primeiro casamento LGBTQ da Espanha, em 1901. (R.F.)