Nanini na grande família da Berlinale

Festival alemão encanta-se com atuação do brasileiro à frente do elenco do drama Greta', que aborda o universo LGBTQ

Monstro sagrado dos palcos, imortalizado na TV como o Lineu de "A grande família" e como astro cômico de novelas eternizadas no coração do Brasil, como "Brega & Chique" (1987) e "Êta mundo bom!" (2016), Marco Antônio Barroso Nanini deixou seu nome gravado na 69ª edição do Festival de Berlim numa atuação que devastou plateias de múltiplas nacionalidades à frente de "Greta". Longa-metragem de estreia do cearense Armando Prata, esta releitura livre da peça teatral "Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá", de Fernando Mello, faz um estudo (corajoso, sem pudor com tabus sexuais) da solidão no universo LGBTQ de Fortaleza.

Fora da briga pelo Urso de Ouro, este folhetim cheio de fel sobre o enfermeiro septuagenário Pedro (Nanini) entrou na mostra Panorama como um forte (quiçá o mais possante) candidato ao troféu Teddy, láurea sobre filmes ligados às culturas trans e homoafetivas. Ao fim de sua projeção, os europeus se perguntavam "Que ator é esse?", encantados com a dimensão de angústia que Nanini dá a Pedro, um gay já grisalho, solitário e fã de uma diva do cinema.

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Assassino involuntário, Jean, papel de Demick Lopes, encontra carinho em Pedro, vivido por Marco Nanini em "Greta", longa de estreia de Arnaldo Prata (Foto: Divulgação)

"Eu só espero que, no Brasil, quando o público for ver 'Greta', os meninos não estejam de azul nem as meninas de rosa", brincou Nanini na Berlinale, alfinetando a frase da ministra Tamares Alves sobre identidade de gêneros. "Pedro é um herói da vida, que encontra na solidariedade um meio de resistir às várias marés da vida".

Com uma tônica similar ao do cinema do artesão alemão Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), de "O medo consome a alma" (1973) e "Lili Marlene" (1981), "Greta" gravita de saunas gays a shows de cantoras trans para mostrar onde Pedro vai entorpecer o vazio em que vive. Mas, ao ajudar um assassino (Demick Lopes) a fugir do hospital, ele acaba se afeiçoando ao rapaz, abrindo uma porta inesperada para o amor. "Queria muito que este filme fosse feito por um ator capaz de transitar da comédia ao drama, como Nanini, que é uma espécie de Giulietta Masina, grande como a atriz de Fellini", diz Praça, que confiou a fotografia do longa a Ivo Lopes Araújo, um dos mais requintados artistas da imagem hoje no Brasil. "Fomos buscar Fassbinder pois ele atualizou os códigos do melodrama a partir de questões sociais".

Ainda na mostra Panorama, um filme asiático ganhou corações e mentes nesta reta final do festival, com suas metáforas morais sobre a relação muitas vezes incompatível entre honra e Poder: "Idol", produção coreana de Lee Su-jin. Na trama, um político em ascensão se vê as voltas de um dilema ao saber que seu filho atropelou uma pessoa, num acidente de trânsito, trazendo o corpo da vítima consigo pra casa. Ali começa um conflito entre justiça e deveres familiares. No domingo, um dia depois da entrega do Urso de Ouro, serão conhecidos todos os premiados pelo voto do público berlinense.

Na boca do povão, um título da seleção hors-concours não para de ganhar curtidas e posts de afeto na internet: o documentário "Varda par Agnès", da nonagenária diretora belga que dá nome ao longa. No auge da forma narrativa, Agnès Varda (de "Cléo das 5 às 7") aproveitou as excursões que fez pelo mundo promovendo o longa "Visages villages" (ganhador do troféu L'Oeil d'Or de melhor .doc em Cannes, em 2017) para registrar imagens. A partir delas, ela costura um mosaico sobre o cinema digital, de 2000 e 2018, em paralelo com as experiências em películas que fez entre as décadas de 1950 e 90. O resultado é um autorretrato... o retrato de uma artista enquanto madura... capaz de espelhar as convenções do audiovisual em si. "A idade foi me aproximando mais das artes visuais, das artes plásticas, que do cinema narrativo comum", diz Agnès. "E é bom viver num tempo com mais mulheres por trás das câmeras".

 



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