Conta outra vez

Uma das frases mais repetidas pelas crianças, quando contamos histórias, e ela gostam é "Conta outra vez". Nós mesmos, quando vivemos algo ou sentimos fortes emoções, esse sentimento vem novamente para revivermos coisas que gostamos. E quando isso acontece em um ambiente em que o ator fica lendo uma linda fábula? "A próxima estação - Um espetáculo para ler", que marca o retorno de Cacá Carvalho palcos cariocas, escrita pelo premiado autor italiano Michele Santeramo, é a presentificação de nossos melhores e maiores desejos infantis.

Santeramo, em seus textos, tem uma capacidade inata para capturar a atenção do espectador com histórias de forte aderência, capazes de refletir os humores, sem recurso fácil de escolher metáforas óbvias. O inusitado recurso, no entanto, é o que dá o enorme diferencial e novidade como forma dramatúrgica: Cacá Carvalho, de pé, vai lendo a história de amor de Julieta e Massimo, fazendo as vozes tanto de um como de outra. O que presenciamos é a oportunidade única de ver o exercício de um ator em sua plenitude. Sem figurinos, sem caracterização, sem qualquer expressão corporal, apenas seu objeto primordial de trabalho: a voz em sua plenitude, em suas nuances, o que provoca total emoção. E no caso, magistral.

Macaque in the trees
Cacá Carvalho, no palco em "Uma próxima estação", não é um narrador ou imitador caricato de vozes (Foto: Ronny Santos/Divulgação)

Cacá não é um narrador e muito menos um imitador caricato de vozes. Sua Julieta passa da segurança pela apreensão, a paixão, generosidade, pavor, amor, entrega e distanciamento apenas pelo sincopar das sílabas, pela respiração que não atropela o texto. Em Massimo, o entusiasmo da juventude, a voz forte, acelerada, animada é substituída pelo ratear, pela impaciência, pelo desespero de uma solidão da alma.

O percurso e seu objeto de significação são marcados por três frases. A primeira, projetada, fala que os dois personagens foram de tal forma rejeitados pelas mães que tudo fizeram para que não nascessem. A segunda, de Julieta, quando diz "Eu fingi que não gozei, quando gozei". E a terceira, de Massimo, é sua indagação à Julieta: "Como foi o futuro que queríamos há 60 anos?" Aí está que o que define a vida não é o nascimento, mas a própria vida. Que podemos até esconder prazeres verdadeiros, pois só conhecemos o futuro quando vira passado.

Ao lado, em um telão, algumas frases dão o tom do que será presenciado, enquanto desenhos, tais como dos livros infantis, transformam o recurso visual em páginas que compõem o que está sendo lido. E a leitura é real, assim como são os meneios da voz que se alteram de acordo com o gênero e a idade. As imagens de Cristina Gardumi são de uma beleza ímpar. Aparentemente com um quê de grotesco, pois os desenhos têm a forma humana misturada à algo de felinos, mas animais que não se identificam, alcançam um sensação de sublime, de beleza rara. É nessa mistura do virar de páginas de Cacá enquanto lê, na projeção das imagens, um conjunto orquestrado pela projeção sincronizada de Michelle Bezerra, que encontramos o nosso lado de prazer: bis, outra vez, mais.

 

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