Badalado em documentário na Berlinale, o mítico diretor alemão exibe suas fotos na Cinemateca de Viena, com foco na solidão e em experiências com polaroides

Com projeção na Berlinale marcada para amanhã, "Die Toten Hosen - You only live once", documentário cujo título evoca uma das mais populares bandas da Alemanha, dirigido pela dupla Cordula Kablit-Post e Paul Dugdale, parte de uma lição ensinada aos germânicos pelo cineasta Wim Wenders: "O rock'n'roll salva vidas,pois ele é o idioma da libertação". Gambino, líder do Die Toten Hosen, espécie de Paulo Ricardo do Velho Mundo, fala sobre Wenders a cada entrevista que dá, não apenas por ter sido dirigido por ele, em filmes como "Palermo shooting" (2008), mas pela maneira como seu ídolo cinematográfico e amigo captou a inquietação da alma de seu povo em cults das telas como "Asas do desejo" (1987). Com isso, mesmo sem filmes novos do realizador de 73 anos, o Festival de Berlim não tira ele da cabeça, ou do olhar, promovendo um boca a boca sobre uma exposição das fotografias mais clássicas do diretor de "Paris, Texas" (a Palma de Ouro de 1984), que ilustram as paredes de uma galeria tão longe e tão perto da capital alemã... logo ali., em Viena. Uma das mais respeitadas cinematecas de toda a Europa, o Film Archiv Austria anda lotada, desde 11 de janeiro, de fãs de Wenders, secos por revistar sua trajetória como fotógrafo, entre 1960 e 80.

"Usar polaroides foi uma aposta estética que fiz em uma linguagem muito parecida com o cinema, pois há um efeito químico cromático, naquele PB dos instantâneos, que me remete ao realismo que a arte moderna tentou captar", escreve Wenders em texto exposto na instituição vienense que assumiu como imagem síntese da retrospectiva a foto 'Kids in Butte, Montana 1978', parte de uma viagem do cineasta aos EUA.

Macaque in the trees
Cenários de clássicos do faroeste hollywoodiano, o Monument Valley é reiventado pela ótica de Wenders em foto de 1977 (Foto: Divulgação)

À época, seu nome já gozava de prestígio internacional graças ao sucesso de "No decurso do tempo" (premiado pela crítica, em Cannes, em 1976) e "Alice nas cidades" (1974), cujos bastidores, com a atriz Yella Rottländer, aparece em várias fotos no Film Archiv Austria. Nessa mesma jornada por terras americanas, Wenders - às voltas hoje com o projeto "Miso soup", longa de terror sobre um psicopata ocidental em passeio pelo Japão - clicou a panorâmica "Mailboxes, Montana 1977", uma de suas fotografias mais badaladas. São caixas de correio na imensidão do nada. "Ali vem o interesse dele, com tons de existencialismo, por paisagens vazias", destaca um texto da exposição, sob a curadoria de Anna Duque y González, com o apoio de Donata Wenders, mulher do diretor, que tem filmes em exibição na cinemateca austríaca.

Macaque in the trees
O aclamado cineasta alemão Win Wenders na abertura da exposição em Viena (Foto: Divulgação)

Mas as atenções do público se concentram sobre seu trabalho mais recente: "Papa Francisco, um homem de palavra", .doc sobre o atual pontífice do Vaticano e sua luta para quebrar tabus cristãos. "É importante vermos os feitos de alguém que pensa no bem social", disse Wenders na estreia mundial do longa, em Cannes.

Macaque in the trees
Kids in Butte, Montana 1978, foto cultuada de Wenders que serve da cartaz ao evento (Foto: Divulgação)

Além das fotos, o Film Archiv Austria exibe pôsteres de seus maiores sucessos, entre eles "O amigo americano" (1977), uma versão das peripécias criminosas de Tom Ripley (personagem célebre da prosa de Patricia Highsmith), com Dennis Hopper (1936-2010). Há uma fotinha do ator na galeria, como um indicativo das saudades cinéfilas de Wenders. Entre retratos do próprio diretor e sua lendária foto do Monument Valley, cenário de faroestes clássicos, com ruínas de um avião. É um festo de desconstrução do real, marca de um autor cinematográfico do mais alto quilate, que promete ir à Berlinale nesta sexta, prestigiar o amigo Gambino... e curtir um rock.

*Roteirista e crítico de cinema



Cenários de clássicos do faroeste hollywoodiano, o Monument Valley é reiventado pela ótica de Wenders em foto de 1977
O aclamado cineasta alemão Win Wenders na abertura da exposição em Viena
Kids in Butte, Montana 1978, foto cultuada de Wenders que serve da cartaz ao evento
As galerias do Film Archiv Austria com a obra fotográfica de Wenders
Paisagens abandonadas, como um drive-in sucateado, são a especialidade de Wenders na fotografia