Diversidade chinesa

Vai até domingo exposição em que pintores do país mais populoso do mundo retratam natureza e paisagens brasileiras, com sua técnica tradicional

Da inovação à tradição, dois séculos depois. Brasil adentro, um time de ponta da pintura chinesa percorreu ruas de cinco cidades para ilustrar, com seu estilo, as paisagens aqui do outro lado do mundo. O resultado é a mostra "Pincel oriental", que, prorrogada, fica até o próximo domingo em exposição no Centro Cultural dos Correios, junto ao antigo Cais do Porto, entre a Candelária e a Praça 15 - ao lado do CCBB.

Formados nas principais universidades e academias de pintura da China, Fan Zhibin, Fang Zhenghe, Fu Zeng, I Ban, Liu Mo e Shan Ren percorreram o país a convite da subsidiária brasileira da State Grid (estatal chinesa do setor elétrico) e da produtora Dell'Arte, que montou o projeto. Eles partiram do Rio de Janeiro e passaram por São Paulo, Salvador, Ouro Preto (MG) e Foz do Iguaçu (PR), conhecendo paisagens urbanas e bucólicas, modernas e tradicionais para traduzi-las através de sua técnica.

Neste início de Século 21, a inspiração para lançar o olhar chinês tradicional sobre o Brasil vem das expedições de pintores europeus que inovaram a pintura por aqui no Século 19 - especialmente do alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858) e do francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848).

Rugendas traçou um caminho semelhante a parte do percurso feito agora pelos chineses, viajando entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, a fim de retratar a natureza e os habitantes brasileiros, em uma missão chefiada pelo barão Georg Heinrich Von Langsdorff.

Já Debret, que veio para o Brasil em 1816, na Missão Artística Francesa trazida pela Coroa Portuguesa, ficou até depois da Independência, fixando-se no Rio de Janeiro, onde fundou a Academia Imperial de Belas Artes, a qual comandou até 1831, quando decidiu voltar a Paris.

Na velocidade atual, os seis chineses percorreram em 20 dias as cinco cidades do Brasil. No trajeto, encontraram, inclusive, cenas que já existiam na época das expedições europeias, como o casario colonial de Ouro Preto e a capoeira nas ruas de Salvador (muito embora, fosse praticada pelos escravos, esta fosse clandestina no Século 19). A fauna brasileira também se fez presente, com tucanos e pica-paus pintados em técnica oriental, acompanhados de descrições por escrito dos elementos retratados.

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Em Ouro Preto, chineses abrem guarda-chuvas para continuar pintando seus quadros (Foto: Byron Mendes/Divulgação)

Com fortes pinceladas e escritos no idioma local, de destacado trabalho caligráfico (arte muito valorizada na China) a Guohua, pintura tradicional chinesa, remonta a séculos antes de Cristo, passando pelas mais diversas dinastias, e que segue como uma forte escola em seu país de origem, não à toa sendo praticada pelos pintores em exposição no Centro Cultural dos Correios.

Ela é normalmente feita sobre papel xuan - originário de Xuancheng, na província chinesa de Anhui, composto por bambu, juta e amoreira. Apesar de fino e mole, esse tipo de papel é resistente ao ataque de insetos e, por conta isso, muito durável.

 Byron Mendes, curador de "Pincel oriental", ressalta a divisão da mostra em três ambientes. "No primeiro é apresentada a proposta da expedição artística. Nele, temos as obras realizadas durante o período da viagem nas cinco cidades. No segundo, predomina a produção autoral destes artistas e apresentamos, também, de forma didática informações sobre técnicas, ferramentas e o contexto histórico da pintura tradicional Chinesa. Existe inclusive um mostruário com pincéis, barretes, carimbos, bastão de tinta entre outras coisas, cedidos pela Câmara de Comércio [e Indústria Brasil-China]".

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Artista de Rua tocando berimbau em Salvador, na pintura feita por Shan Ren (Foto: Divulgação)

Uma brasileira

O terceiro ambiente é dedicado a Paula Klien, brasileira inserida, como uma espécie de elemento de intercâmbio na exposição. Ela foi escolhida devido à ligação de sua obra com a arte oriental. A pintora desenvolveu uma técnica própria com tinta chinesa, particularmente nanquim, sem formas definidas.

Um contraponto pictórico com os quadros dos pintores chineses visitantes foi outro ponto levado em consideração pela curadoria para a inclusão da artista carioca, nascida em 1968.

Múltiplos matizes

Ao conceitualizar o projeto de "Pincel oriental", Byron Mendes ressalta o aspecto antropológico da exposição, "apresentando o viés de uma expedição artística no Brasil" com as surpresas experimentadas pelos seis pintores chineses, todos eles nascidos entre as décadas de 1960 e de 1970 e que vieram pela primeira vez ao Brasil, sentindo "um impacto das cores, sabores diversos e diversidade étnica" vivenciada daqui.

"Embora a China tenha dimensões continentais e possua um número grande de grupos étnicos, sejam han, mongóis ou tibetanos, eles possuem essencialmente as mesmas características orientais. Aqui, existe toda uma descendência de povos europeus, africanos e matizes indígenas - além, obviamente, da mistura de tudo isso, que aguçou o interesse deles", explica o curador. "Alguns chegaram a fazer estudos e rascunhos sobre esta diversidade", acrescenta.

Durante a viagem, um dos participantes, Fan Zhibin, reitor da Academia de Pintura Chinesa de Shanxi, destacou que " a comida, a cultura, a aparência Tudo parecia diferente entre o Rio, o Nordeste e o Sul".

Em outra divisão triangular, os quadros expostos nas paredes do Centro Cultural dos Correios transparecem parte da divisão temática da pintura tradicional chinesa. A Guohua mira-se em três aspectos básicos de interesse: figuras, como o capoeirista; pássaros, como os tucanos e pica-paus, e paisagens, do Farol da Barra ao Cristo Redentor, passando pelas tantas ruas históricas.

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Pintores chineses em Salvador, uma das cinco cidades que eles visitaram (Foto: Byron Mendes/Divulgação)

"A natureza é uma protagonista recorrente na obra deles. O olhar pictórico estrangeiro, quebra o lugar comum, nos possibilita enxergar de uma forma inusitada o nosso patrimônio histórico, fauna e natureza. O artista chinês não se concentra em retratar as coisas como nós ocidentais, buscando representar as coisas pelo realismo", enfatiza Byron Mendes. "No trabalho deles existem lacunas e espaço brancos, o observador de certa forma participa da obra, completando estes espaços vazios".