Fela vive!

Aplaudido em Roterdã e já convidado para festival na África, .doc sobre músico nigeriano coroa a militância estética e ética de Joel Zito Araújo

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Caldeirão multicultural, fervido no calor das ideias de Malcolm X, da urgência de compreensão da identidade africana e da vontade de expressar as raízes de seu continente natal sem o jugo dos colonizadores brancos europeus, a cabeça do músico nigeriano Fela Kuti (1938-1997) deu ao mundo uma sonoridade e uma poesia que hoje reverberam pelo Festival de Roterdã, na Holanda, reapresentando a coragem dele a uma nova geração de cinéfilos. E o mérito desse eco ético e estético é de um diretor brasileiro: mineiro de Nanuque, com 31 anos de estrada nas telas, Joel Zito Araújo alcança com "Meu amigo Fela" uma consagração em múltiplos idiomas, o que redimensiona seu prestígio como um dos mais combativos documentaristas em atividade hoje no Brasil. Retrato sobre as lutas de Fela para afirmar seus ideais, o novo longa-metragem do realizador de "A negação do Brasil" (2000) começou sua carreira pelas telas inflamando debates sobre consciência política e racial em salas exibidoras holandesas. Sai de lá com passagem garantida para o mais respeitado dos festivais da África, o Fespaco, em Burkina Faso - de 23 de fevereiro a 2 de março. Sua projeção em Roterdã fez parte do programa Soul In The Eye, uma radiografia do cinema negro brasileiro de diferentes gerações (com fortíssima concentração de mulheres diretoras, como Sabrina Fidalgo, Yasmin Thayná e Jéssica Queiroz), arquitetado sob a curadoria da doutora em História Janaína Oliveira, e batizado em referência ao curta "Alma no olho" (1973), de Zózimo Bulbul (1937-2013). A revisão crítica da vida e da obra de Fela - construída a partir de uma jornada internacional do cineasta ao lado do escritor Carlos Moore, biógrafo do multinstrumentista por trás de LPs lendários do afrobeat como "Why black man dey suffer", de 1971 - é uma das vertentes de uma filmografia iniciada por Joel Zito em 1988. Uma trajetória audiovisual com os olhos bem abertos para os exercícios de exclusão do mundo, mas com os pés fincados na realidade de intolerâncias do Brasil. Realidade que ele transforma ora em denúncia explícita (caso do longa "Cinderelas, lobos e um príncipe encantado"), ora em aulas de lirismo (como "São Paulo abraça Mandela"). Em entrevista ao JB, o diretor mostra o que há de universal na voz de Fela e defende a importância da narrativa documental para arte de combater o preconceito.

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Joel Zito Araújo, em Roterdã, alcança o ápice de sua estética documental em investigação sobre músico nigeriano (Foto: Divulgação)

Quando se deu a descoberta do Fela Kuti na sua vida e o que esse figura acendeu ética e esteticamente em suas reflexões?

Joel Zito Araújo: Fela entrou na minha vida quando Carlos Moore, seu biógrafo oficial, viu meu filme "A Negação do Brasil" e me procurou sugerindo que eu era o cara que poderia fazer o filme do "verdadeiro" ponto de vista dele, sobre esse genial músico nigeriano. Seria o Fela Kuti tratado como um grande ativista político que foi, e grande panafricanista. Isto aconteceu há cerca de dez anos. Ele me alertou que depois de "My music is a weapon", um excelente .doc realizado no início dos anos oitenta, ninguém tinha feito mais nenhum filme sobre Fela. Mas que o nome ressurgia forte pelo musical sobre ele na Broadway, que fazia um imenso sucesso. Foi então que li a biografia "Fela: esta puta vida", escrita por Carlos. Na época, ele passava uma temporada no Brasil, vivendo em Salvador. E o que vi ali, literalmente, acendeu uma fogueira de desejos dentro de mim.

Que Fela você descobriu nessa leitura?

Joel Zito Araújo: O que eu vi foi um herói trágico que traduzia muitas de minhas impressões e críticas sobre a África contemporânea, ainda com tanta submissão colonial, e tantos governantes que só se preocupam com eles mesmos e com suas famílias. E há os militares que, em nome da pátria, só defendem os interesses estrangeiros. Há uma classe média colonizada que considera seus países verdadeiras merdas, só tendo olhos submissos para os europeus e norte-americanos. Fela em sua música e em sua vida refletiu sobre isto. Aí eu encontrei o meu jeito de comentar uma parte da África que merece muita crítica. Digamos que peguei uma carona no Fela para expressar também o meu ponto de vista. Mas para a minha surpresa, surgiu um outro filme, exatamente quando consegui dinheiro para fazer "Meu Amigo Fela". Felizmente o filme tinha interesse somente no Fela como ícone pop.

O que o Fela trouxe para o pensamento da identidade racial negra? O que é o africanismo que ele espelha?

Joel Zito Araújo: Fela, simbolicamente, viveu o mesmo processo identitário que todos nós afro-descendentes vivemos aqui no Brasil. Ele foi criado para achar os europeus lindos e maravilhosos, e para achar o seu país uma merda. Quando ele foi para Londres, essa fantasia começou a cair por terra. E quando ele encontrou seu grande amor norte-americano, Sandra Izsadore, ela explodiu essa mentalidade colonial dentro dele. Carlos alisava o cabelo quando jovem, e tentava clarear a pele. A grande poeta Maya Angelou exerceu em Carlos o mesmo papel que Sandra exerceu em Fela. Eu não tive uma musa assim no início da vida adulta, mas a dura vida de minha mãe como empregada doméstica negra me ajudou a optar pela minha negritude, simbolicamente optar por ela, e como jovem miscigenado, "mulato", a medida que passei ter orgulho de minha origem negra, eu me libertei da submissão colonial mental assim como Carlos e Fela. Então, eu acho que o africanismo de Fela é isto. É voltar para suas origens negras, ter orgulho delas, ter fraternidade e sororidade. E, ao mesmo tempo, ser crítico com os governos corruptos, egoístas, voltados para seus interesses e das elites (especialmente estrangeiras). Essa é contemporaneidade de Fela. Quando revejo o filme, parece que ele está comentando o Brasil.

Há 15 anos, você encantou o cinema com um drama seminal para o debate da representação das populações negras no país... e sobre o amor familiar: "Filhas do Vento", ficção que te deu o Kikito de melhor diretor em Gramado, em 2004. Mas, desde então, o documentário se tornou seu ambiente de expressão mais recorrente. O que essa imersão no real trouxe para o seu olhar cinematográfico?

Joel Zito Araújo: Como profissional de cinema, eu nasci fazendo documentários. Como amante de cinema, eu nasci amando as ficções. Confesso que, apesar da crescente tendência moderna de produção de gêneros híbridos, onde não se sabe onde começa um e termina o outro... coisa que eu gosto muito de ver..., eu ainda sou clássico nos meus projetos. Faço os dois meio como gêneros separados. Mas sempre inspirado no real. Agora, viverei uma fase ficcional. Meu próximo longa se chama "O pai da Rita", que é meio comédia, meio drama. E há uma série em que estou envolvido como coprodutor e diretor, que é também um projeto ficcional, baseado em um personagem histórico forte, que ainda não posso divulgar.

O que a mostra de Roterdã Soul in the Eye, dedicada à identidade negra do cinema nacional, pode simbolizar para a representação da população afrodescendente do Brasil no exterior?

Joel Zito Araújo: A mostra é muito interessante, pois reflete a emergência e diversidade da produção de um cinema negro brasileiro, desde Zózimo Bulbul.



Joel Zito Araújo, em Roterdã, alcança o ápice de sua estética documental em investigação sobre músico nigeriano
Cartaz do documentário "Meu amigo Fela", de Joel Zito Araújo