Clímax da transgressão

O polêmico diretor lança esta semana sua mistura de dança, terror e filme catástrofe

Doses fartas de sexo, sempre retratado em cenas tórridas, violência (física e verbal) e uma estética taquicárdica, no qual a câmera e a edição convulsionam: este é o cinema de Gaspar Nóe, diretor francês, nascido em Bueno Aires há 55 anos, e aclamado mundialmente, como um polemista profissional, desde que "Irreversível" (2002), um thriller sobre um estupro, narrado de trás pra frente, tornou-se "O" filme-escândalo da primeira metade dos anos 2000. De lá pra cá, filmou pouco, apostando mais em videoclipes e experimentos de música e dança, mas viu os poucos longas que rodou - "Viagem alucinante", de 2009, e "Love, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, em 2015 - tornarem-se objetos de debate e de culto, por sua ousadia formal. Nesta quarta, Noé vem ao Rio, para acompanhar a sessão de gala de seu mais recente filme, "Clímax", uma das sensações da Quinzena dos Realizadores de Cannes, no Reserva Cultural, em Niterói, às 21h. Com estreia marcada para esta quinta, em circuito, esta mistura de terror, música e filme catástrofe acompanha uma longa noite de loucura de um grupo de jovens que, durante uma festa, entram num transe paranoico regado a LSD.

Na entrevista a seguir, concedida ao JORNAL DO BRASIL em Paris, durante o Rendez-vous Avec Le Cinéma Français (encontro anual promovido pela Unifrance, o órgão de difusão da produção audiovisual francófona no mundo), entre 17 e 21 de janeiro, Noé faz uma reflexão sobre as inquietudes da juventude.

Macaque in the trees
Cineasta argentino radicado na França, Gaspar Noé agrega polêmica a seu olhar sobre os excessos nossos de cada dia (Foto: Divulgação)

JORNAL DO BRASIL- Em Cannes, "Clímax" foi descrito como uma incursão sua no universo do terror, mas é uma releitura experimental muito radical desse filão. Aliás, há muitos filões do cinema misturados nesse seu filme, inclusive o musical, o que é surpreendente para alguém cujo nome representa quase um gênero em si. Seus trabalhos são definidos como "um filme de Gaspar Noé". O que te levou a esse diálogo com outras expressões cinematográficas?

GASPAR NOÉ - Mais do que o terror, existe um outro gênero, do qual sou fã, mas que anda há tempos sumido das telas, em "Clímax": o "filme catástrofe", estrutura narrativa de funciona bem como metáfora política. Lembra-se de "Terremoto" ou de "Inferno na torre". Eram filme emblemáticos dessa tendência, fundamental para o cinema comercial dos anos 1970, no qual um grupo de burgueses, preso em uma situação de perigo ligado à natureza, eram postos à prova, numa cilada da sorte que uniformizava sua condição social privilegiado. Todo burguês é igual no medo. Tentei importar esse formato para um filme sobre jovens dançarinos.

Mas seria uma estética de catástrofe à hollywoodiana?

Não apenas, pois há um toque de absurdo no cotidiano parecido com o que você encontra em filmes como "Calafrios", de David Cronenberg, ou em "Ensaio de orquestra", de Fellini, nos quais a estranheza se embrenha em ritos do dia a dia.

De que maneira "Clímax" funciona como uma crônica de costumes da juventude francesa?

Não diria da França, pois acredito que há uma natureza universal de inquietude nos jovens de todo o Ocidente, com algumas diferenças dependendo do grau de tolerância de cada cultura. Há uma radicalidade generalizada relativa ao culto à festa como socialização, ao consumo de drogas... O que há de diferente na juventude da França é que, entre nós, o cinema é um objeto de culto de todos, desde a mais tenra idade, o que transforma a cinefilia em uma prática juvenil, na busca da liberdade pelas vias da arte.

Como é que o rótulo de transgressor se encaixa em você? Seus filmes são encarados como subversivos, em sua representação do sexo, sobretudo. O que vem de ousadia pela frente?

Um documentário. Quero investir agora na narrativa onde o real aparece em seu estado bruto, para que ninguém possa me acusar de fazer trucagens, de ser sexista, do que for. Hoje, o cinema é dominado por produtos massificados que têm por objetivo gerar satisfação. Um cara que não se encaixa nessa medida de prazer, como eu, é visto como uma exceção torta.

O que seria essa sua estética de exceção em um filme como "Clímax"?

É o desejo de sustentar a narrativa sobre dois verbos: "dançar" e "fazer amor". Esse filme parte de um desafio técnico enorme, de registrar o movimento livre, da dança, com a câmera na mão, traduzindo o efeito do LSD sobre os personagens, num surto de loucura. Eu detestei os últimos musicais que vi, pois sinto que todos são artificiais demais em sua forma de representação da dança. Já os vídeos no YouTube de crianças dançando me hipnotizam. Fui por esse caminho.

Hipnose é uma palavra comum à experiência de imersão que seus filmes promovem, em sua cadência estroboscópica de imagens, que vem desde "Irreversível". O quanto aquele filme marcou a linha formal de sua obra?

Embora seja muito falado, "Irreversível", que foi meu filme mais marcante por muito tempo, vem sendo suplantado nas novas gerações por "Viagem alucinante", que caiu no gosto de uma galera que era criança quando ele foi feito, há dez anos. Os filhos adolescentes dos meus amigos dizem que eles se reúnem para ver esse meu filme fumando baseados ao longo da projeção, para aproveitar seu tom lisérgico. É a forma como a juventude de nossos dias se relaciona com a imagem.

* Roteirista e crítico de cinema