Soul Brasil

Aos 88 anos, Tony Tornado canta sucessos no Imperator para fazer o Rio dançar

Saudade, aquele vocábulo doído, que se traduz melhor com canções do que com palavras, vai tomar conta do Centro Cultural João Nogueira, no Méier – para os íntimos, Imperator – amanhã, lá pelas 19h, quando os acordes de “BR-3” saltarem dos lábios de Tony Tornado, num show para celebrar as cinco décadas de seu casamento com a soul music. Ícone no cinema, com filmes lendários como “Pixote – A lei do mais fraco” (1981) em seu currículo, ele tem um lugar cativo na TV, onde foi visto, recentemente, na série “Carcereiros”, premiada na França, pela contundência de sua radiografia das mazelas culturais do Brasil. Contradições que ele - nascido há 88 anos em Mirante do Paranapanema, no interior de São Paulo, mas transformado em carioca por identificação com o suingue local - pôs nas entrelinhas de melodias embaladas de lirismo, numa estética de “brodagem”. É uma estética que vem desde o fim dos anos 1960, tempos em que ele cantava sob pseudônimo americano (foi Johnny Bradfort e Tony Checker), mas salpicando brasilidade a cada Get up, (get on up) que decalcava de James Brown e afins.

“A música me alimenta, e eu não diria ‘ainda’, diria ‘sempre’. Até na dramaturgia, eu uso a música para me expressar. Ela é a trilha sonora de cada batida do meu coração. Soul é alma. A soul music é o eco da minha alma, que expressa as inquietações mas expressa também a alegria e o prazer de viver através do som e da dança. É um jeito de ser”, poetiza o ator e cantor, que promete rever velhas “companheiras de estrada” como “Podes crer, amizade”, assim como o hino “Mandamentos black”, de Gerson King Combo, no Imperator. “O somatório da inquietude com a alegria remete à conscientização de que a amizade é o que há de mais importante entre as pessoas, independentemente de cor, gênero ou o que seja. Podes crer; quando duas mãos se encontram, refletem no chão a sombra da mesma cor”.

Primórdios do funk

Entre as novas gerações de artistas negros do país, Tornado ainda levanta poeira, como prova a cineasta Sabrina Fidalgo, que espera incluí-lo no rol de entrevistados do documentário “A cidade do funk”, sobre o som dos bailes de ontem e de hoje. “No início dos anos 1970, começa a nacionalização do soul nos bailes, pois, até então, só se dançavam músicas estrangeiras, com James Brown e cia. Tony foi um dos pioneiros a abrasileirar os bailes, um dos primeiros de um movimento de empoderamento da galera preta do subúrbio carioca, um dos expoentes de uma força conscientizada com os movimentos de direitos civis dos EUA, com Martin Luther King, com James Baldwin, com a cultura da África. Tony chegou preto, orgulhoso da cor, rico de atitudes: ele inspirou a gente. É um ícone nacional. Ele fez a gente se inspirar”, diz Sabrina, que vai esta semana à Holanda, defendendo o Brasil na mostra Soul in The Eye, do Festival de Roterdã, só com cineastas negros nacionais.

Quem testemunhou as transformações na música brasileira nos últimos 50 anos, caso do crítico Tárik de Souza, dá a Tornado lugar de honra na História. “Ele literalmente corporificou o soul brasileiro para as massas. Seu desempenho na ‘BR-3’ abriu uma autobahn para discípulos de James Brown e futuros bailarinos do passinho”, abençoa Tarik, referindo-se ao hit que deu ao cantor, às voltas com o Trio Ternura, a vitória no Festival da Canção em 1970, quando ainda assinava Toni, com “i”.

Aquele festival foi uma conquista essencial à saga de Tornado nas vitrolas, mas há um lado B nesse sucesso. “’BR-3’ é um divisor de águas na minha vida. Canção genial, ela foi um presente que recebi da dupla Antonio Adolfo e Tibério Gaspar e de Deus. Sou grato até hoje. Ganhar aquele festival, concorrendo com tanta fera da música popular brasileira, foi algo indescritível. O carinho do público no estádio, depois nas ruas e nos programas de rádio e TV. Bom, esse carinho vem até hoje. Não posso deixar de cantar e falar da BR-3, por onde passo. Precisa dizer mais alguma coisa? Agora, a canção incomodou muita gente na época também, né, Don? Começaram a dizer que BR-3 era hino de maconheiro, que BR-3 era uma veia do braço, etc. E logo comigo que nunca usei drogas, e nem bebo. Mas isso já passou. A mentira tem pernas curtas e se move veloz mas a música está aí até hoje”, comemora Tornado. Ele encara com otimismo a batalha dos negros no Brasil contra a intolerância racial. “Muito melhorou, mas ainda há muito o que melhorar. A luta do negro no Brasil se confunde com a luta do pobre. É uma coisa só. Ainda somos um país de desigualdades”.

Em 1984, o rosto de Tornado deslumbrou plateias europeias no Festival de Cannes, quando ele deu vida ao herói Ganga Zumba em “Quilombo”, de Cacá Diegues, exibido na Croisette na briga pela Palma de Ouro – foram dias glória para o debate acerca da representação do negro nas telas. “Tony Tornado foi um dos primeiros atores que escolhemos para o filme. Lembro-me que ele se mostrou muito emocionado quando o convidei pro filme, num papel diferente de tudo que fizera até ali no cinema ou na TV”, lembra Cacá. “Desde então, em Xerém, onde filmamos, Tony acordava mais cedo do que o resto do elenco, para incorporar a grandeza, a liderança e o espírito democrático de nosso herói, com o qual convivia pelo resto do dia. Eu às vezes o encontrava nesses momentos sublimes e ele mal me via passar, absolutamente tomado pela missão de se tornar o grande Ganga Zumba. Na época, eu achava que não era necessário tanto esforço. Ele já era física e espiritualmente o generoso herói, com seu corpo volumoso, saudável e aparentemente indestrutível, e sua imensa e contagiante simpatia”.

Passados 22 anos desse misto de atuação e transe, Tornado voltou a arrancar suspiros na tela grande como um militar avesso à tortura nos anos de chumbo à moda disco de “1972” (2006), de José Emílio Rondeau, escrito pela jornalista Ana Maria Bahiana. “Tony foi tudo! O personagem dele era complexo: tinha esse lado boa praça, mas um passado duro. O Tony, super profissa, entendeu tudo e transmitiu tudo. E mais: nosso elenco era 80% de garotada, com mínima ou nenhuma experiência como atores de cinema. Tony ensinou tudo para eles, por exemplo e na conversa. Era o pai adotivo da turma nas filmagens”, diz Ana, correspondente em Hollywood.

Histórias sobre a dedicação profissional de Tornado vão integrar o livro que o poeta Lula Moura, produtor do show de amanhã prepara, com base na “BR-3 e na trajetória do cantor. “Sou fã do Tony e considero sua história um legado artístico, musical e humano que precisa ser perenizado e estar ao alcance das gerações atuais e as que estão por vir”, diz Lula, lembrando que vai ter um momento de homenagem a Tim Maia quando Tornado estiver no Imperator, com “Azul da cor do mar” e “Sossego”.

Na revisão histórica dos feitos de Tornado, a atuação como Gregório Fortunato, anjo da guarda de Getúlio Vargas, na TV, em “Agosto” (1993), merece um capítulo à parte, pelos elogios que seu desempenho recebeu. “É o maior momento dele na TV. Um grande personagem, muito bem interpretado, perfeito na caracterização”, elogia o crítico de televisão Nilson Xavier.

Telinha e cinema seguem no horizonte de Tornado, com carinho. Mas agora é hora de ele burilar sua porção cantor. “Subir no palco dá sempre aquele friozinho na barriga, né? Não tem essa de ‘esses anos todos de experiência’. É muita emoção, e eu curto muito poder transmitir a mensagem da minha alma, através da música, da dança e da representação para o público e receber dele também, claro”, diz Tornado. “É sempre uma troca. Vai ser um show especial”.

Serviço

TONY TORNADO - Centro Cultural João Nogueira/Imperator (R. Dias da Cruz, 170 - Méier; Tel.: 2597-3897). Amanhã, às 19h. R$ 50 (plateia inferior e balcão).

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