Robert Guédiguian: À luz do marxismo

Cultuado por crônicas sociais como 'Marie-Jo e seus dois amores', o diretor francês faz um balanço do cinema político, em meio à montagem de um novo longa

PARIS - Leitor de Marx desde a adolescência, em Marseille, Robert Guédiguian levará o velho barbudo consigo, hoje, para o primeiro dia de montagem do 21º longa-metragem de sua carreira, cujas filmagens terminaram na última quarta-feira: “Sic Transit Gloria Mundi” é o título, referente a uma expressão em latim usada em ritos de sucessão de papas. A ideia de que “transitória é a glória do mundo” norteará essa incursão do realizador dos cults “Marie-Jo e seus dois amores” (2002) e “As neves do Kilimanjaro” (2011) pelo cinema noir.

“Só na edição vou ter certeza do material que tenho, mas o desejo é de fazer um melodrama noir”, diz o cineasta de 65 anos, mundialmente reconhecido como um cronista das mazelas sociais da Europa, em entrevista ao JORNAL DO BRASIL, na capital francesa.

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Robert Guédiguian, mito do cinema social na França, fala sobre a responsabilidade de quem faz arte (Foto: Rodrigo Fonseca)

Um dos integrantes do júri do último Festival de Cannes, Guédiguian é um dos diretores mais disputados no 21º Rendez-vous Avec le Cinèma Français, evento organizado pelo órgão audiovisual do Ministério da Cultura da França, a Unifrance, que usa o Hotel Le Collectionneur, na Rue de Courcelles, como fórum para a promoção do cinema de autor.

Há 75 filmes sendo badalados aqui, incluindo o drama que deu a Guédiguian os prêmios Signis e Unimed no Festival de Veneza 2017: “Uma casa à beira-mar” (“La villa”), já lançada no Brasil, onde ele tem uma legião de fãs. “Vira e mexe, recebo, por Facebook, um recado de brasileiros querendo discutir política ou apenas sendo carinhosos”, orgulha-se o cineasta, que começou a filmar em 1975, tendo a atriz Ariane Ascaride, com quem é casado desde 1975, como estrela de toda sua obra. Igualmente constantes em seus filmes são os atores Jean-Pierre Darroussin e Gérard Meylan: “Não é equipe, é família”, explica Guédiguian, que faz uma análise sobre o dever da arte nestes tempos de intolerância.

JORNAL DO BRASIL: Seu novo filme, já em montagem, é um noir com elementos de folhetim. Onde entra Marx aí?

ROBERT GUÉDIGUIAN: Ando na companhia desse senhor desde 1968, quando “O capital” me deu a percepção de que a ideia de luta de classes como motor da História é uma forma dialética de identificar quem são os antagonistas. Antes, havia burguesia e proletariado. Hoje, existe aquele que tem uma propriedade e aquele que não tem nada a perder. E entre eles há a contradição histórica que leva à dominação. Este meu novo filme dá voz à essa contradição a partir de um olhar para o fato de que o servo hoje concorda com o patrão, ri do que o patrão ri. Escravidão começa assim.

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Cena do noir 'Sic Transit Gloria Mundi' (Foto: Divulgação)

Falando em dialética, houve um tempo em que o cinema se divida entre filmes políticos e filmes para mercado, sem ideologia de levante. Hoje se cultua, mesmo nas searas mais combativas do cinema, a ideia do “filme de gênero”. O senhor, que é um cineasta de causas sociais, volta-se para o noir, um filão de mercado. O que justifica essa incursão?

A possibilidade de ampliar meus interlocutores. Um filme político, cru, sem qualquer brecha para o humor, o amor, o suspense, vai ter uns 50 espectadores. Um filme de tons políticos que se vende como comédia ou drama alcança o triplo disso. A necessidade de o cinema se abrir para o diálogo com públicos mais amplos não significa fazer concessões, abrir a guarda. Significa pensar no espectador a partir das regras que ele conhece e gosta. Seguir regras não diminui a vontade de transgressão. O diretor de teatro Jean Villar tinha uma frase ótima sobre isso: “Elitismo para todos”.

Qual é o enredo de “Sic Transit Gloria Mundi”?

Ele é uma investigação sobre a concordância entre o discurso do patrão e dos empregados, do ponto de vista de quem explora e de quem é explorado. É um filme com muito diálogo, pois essa é uma forma de valorizar o que o cinema tem de precioso: o elenco. Os atores são a essência de uma ficção.

Qual é o lugar do heroísmo num cinema politizado como o seu?

Herói é a pessoa que pensa no próximo. E essa pessoa está no povo.

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Ariane Ascaride, Gérad Meylan e Jean-Pierre Darrousin em 'Uma casa à beira-mar' (Foto: Divulgação)

Qual é a responsabilidade de se fazer cinema hoje?

É a consciência de que o artista fabrica ideologias. A arte funda um povo.

*Roteirista e crítico de cinema



Robert Guédiguian, mito do cinema social na França, fala sobre a responsabilidade de quem faz arte
Cena do noir 'Sic Transit Gloria Mundi'
Ariane Ascaride, Gérad Meylan e Jean-Pierre Darrousin em 'Uma casa à beira-mar'