Todos os caminhos audiovisuais levam a Roma

Chegou o dia de ir à “Roma”: chamado de obra-prima pela “Vanity Fair”, classificado como filme do ano pelas revistas “Time” e “Rolling Stone”, laureado com o Leão de Ouro do Festival de Veneza, favorito ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, o novo longa-metragem do mexicano Alfonso Cuarón aterrissa hoje na pista da Netflix, onde periga virar a atração mais vista de um variado cardápio. Fotografada (em P&B), montada, escrita, produzida e dirigida pelo oscarizado realizador de “Gravidade” (2013), com base em suas memórias juvenis, este drama sobre a atomização de uma família de classe média, no México dos anos 1970, correu algum dos maiores festivais de cinema do mundo, como os de Toronto, San Sebastián, Londres e Marrakech, totalizando 37 prêmios. Favorita ao Oscar, em múltiplas categorias, a produção vai ter exibições em tela grande em diferentes locais do mundo, incluindo no Brasil, no fim do mês, para valorizar sua potência visual, alimentando a visibilidade dos filmes do serviço de streaming em outras telas: espera-se o mesmo destino para “The Irishman”, que Martin Scorsese dirigiu para a Netflix, e para “Pinóquio”, animação de Guillermo Del Toro, em fase de desenvolvimento.

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Cotado ao Oscar, o drama mexicano que deu o Leão de Ouro à Netflix estreia na web hoje (Foto: Divulgação)

“É importante que a existência de um filme não se perca com o tempo. Quando foi que vocês viram um filme de Robert Bresson ou de Yasujiro Ozu numa sala de cinema pela última vez? E quando foi que viram um filme de um mestre do porte deles em outro suporte, doméstico?”, questionou Cuarón em sua passagem por Veneza, já garantindo que “Roma” seria exibido em salas comerciais e não só na Netflix. “É importante avaliarmos bem o destino dado a cada filme, a partir de suas especificidades. Este é um filme em preto & branco, falado em espanhol, calcado no drama e sem ferramentas de cinema de gênero. Que espaço será que ele teria em circuito? O importante dessa questão é defender que haja opções de como os filmes sejam vistos, de acordo com o tamanho deles”.

Embora andem grafando seu título por aí em minúsculo, “Roma” saiu, originalmente, como “ROMA”: o uso de letras maiúsculas é uma brincadeira com a palavra “amor”, virado às avessas pelas cacetadas da vida. Em seu novo e confessionalíssimo trabalho, Cuarón revive a crise familiar de uma química, Sofia (Marina de Tavira), cuja paz vai entrar em xeque em meio a viradas em sua rotina afetiva e em seu país. Tudo é narrado sob a ótica de sua empregada, uma jovem ameríndia, Cleo (Yalitzia Aparicio). “Eu tive uma babá índia que marcou a minha infância e este filme é uma recordação do que vivi com ela”, disse Cuarón, que vê seu trabalho ser comparado a “Amarcord” (1973), de Fellini, por sua dimensão memorialística.